Quer pagar quanto?
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Denise Ribeiro<br> Equipe da Folha 
''Quanto eu tenho que te dar?'', perguntou a madame. ''Dois reais'', respondeu o flanelinha, nas proximidades de um shopping. Eu que detesto me sentir coagida a dar dinheiro a eles cada vez que estaciono meu carro em via pública não acreditei no que acabara de ouvir. Primeiro porque ela perguntou quanto ''tinha'' que dar a ele. Mas o que mais me surpreendeu foi a resposta. Se fosse eu teria dito 10 ou 50, já que a quantia parecia pouco importar para ela.
E é por causa de pessoas como essa distinta senhora que eu, que mal tenho dinheiro para a gasolina, sou obrigada a conviver com essa prática ilícita, vexatória, porém bastante lucrativa, de extorsão mediante a sutil e momentânea tomada de carros como reféns.
A propósito, é a parte da sutileza que mais me intriga. Porque parte-se sempre do pressuposto que, caso você não colabore com o eventual guardião da paz do seu veículo, está subentendido que ele se transmutará de prestativo vigia a algoz de seu indefeso patrimônio. Mas ele nunca precisa dizer isso. Afinal, você já deveria saber. Como não? Eles já estão aí há tanto tempo. São praticamente uma instituição das ruas por onde se circula sobre quatro rodas.
Eu sempre que possível me faço de desentendida. Procuro agir como se ninguém estivesse esperando de mim alguma remuneração pelo simples fato de estar diante da minha janela me olhando como se me conhecesse. Qualquer hora ainda pergunto: Pois não, deseja alguma coisa? Assim mesmo, como quem não sabe de nada.


