Quem te viu quem te vê
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de março de 1997
Fabiano Camargo 
DivulgaçãoO Teatro Paiol, inaugurado em 1971, aproveita um antigo paiol de combustíveis e explosivos
O prédio construído há 51 anos para ser uma estufa de bananas, nas Mercês, é o mais novo capítulo de uma tradição já consagrada em Curitiba: a de transformar antigos prédios onde funcionavam indústrias, comércio e até alguns estabelecimentos de má reputação em atraentes endereços culturais. O depósito de frutas reciclado é o Espaço Cênico, inaugurado no início do ano oferecendo cursos e oficinas na área do teatro, dança, acrobacia e artes em geral. Pela cidade, outros imóveis destinados a preservar e divulgar a cultura também guardam muita história.
O Teatro do Paiol foi o primeiro espaço reciclado em prol da cultura em Curitiba, inaugurando uma tendência. Construído em 1906 como um depósito de explosivos e inflamáveis, foi transformado num teatro em 1971, na primeira gestão do então prefeito Jaime Lerner. A iniciativa até hoje é elogiada por artistas que se apresentam na cidade e consideram o espaço um dos mais aconchegantes do país. Neste início de ano o teatro passou por algumas reformas, ganhando retoques que lhe garantem a condição de ser um dos palcos mais importantes da cidade.
O clima que estas antigas construções exalam parece combinar perfeitamente com endereços onde se vive e difunde a cultura. Uma das diretoras do Espaço Cênico, a produtora Viviane Burguer, concorda com esta opinião. Descobrimos o local por acaso, passando na frente. Tem um astral despojado que é bem cult, conta. O fato de ser uma construção antiga, sem a estrutura rígida de uma escola, deixa o ambiente mais descontraído. Além da criatividade das pessoas, o local fica marcado pela criatividade no aproveitamento do espaço. Com 400 metros quadrados, a antiga estufa, localizada na rua Paulo Graeser Sobrinho, nº 305, só precisou de algumas reformas para melhorar o conforto.
Outro endereço cultural mantido pela iniciativa privada é o complexo da Fábrika, que tem um teatro com 120 lugares e um galpão utilizado para feiras de moda, ensaios de peças e festas. Antiga sede da Fábrica de Fitas Venske, fundada em 1907 e transferida em 1938 para o Alto da XV, onde funcionou até fechar suas portas, em 1980, a construção ficou seis anos abandonada. Em 1982 foi comprada por novos donos que quatro anos depois iniciaram a obra que a transformaria no espaço multimídia atual.
Kraw PenasAulas de circo e oficinas de teatro fazem parte da programação do novíssimo Espaço Cênico, que já foi uma estufa de bananas
Além do auditório e do galpão principal, abriga ainda uma academia de ginástica e dança e as escolas de língua Aliança Francesa e Goethe. Por ter uma história, o lugar é muito carismático, explica a administradora da Fábrika, Elaine Moro Costa. Este ano, um café deve ser inaugurado para completar a proposta de centro cultural e de lazer.
Mas é a prefeitura que possui o maior número de prédios reciclados em nome da cultura. São exemplos disso a Casa Vermelha (antigo empório construído em 1891 pelo alemão Welhelm Peters), a Casa Romário Martins (com mais de 100 anos, nos quais abrigou até uma peixaria), o Solar do Barão (levantado em 1880 como residência do Barão do Serro Azul e, antes de virar centro cultural, ainda utilizado como quartel) e a própria sede da Fundação Cutural (prédio de 1866, construído pelo austríaco Jose Wolff e seu filho Fredolin Wolff, que chegou a ser empregado como pensão).
Alguns endereços culturais guardam uma história ainda mais curiosa. O Centro de Criatividade era uma antiga fábrica de cola - a Fundação Cultural não possui registros com a data de fundação -, enquanto o Centro Cultural do Portão foi projetado, no final dos anos 70, para ser um terminal de transporte coletivo. Função suspeita tinha o casarão de mais de meio século onde hoje está o teatro Novelas Curitibanas. Entre as décadas de 70 e 80, funcionou como - empregando uma expressão condizente com sua idade - casa de tolerância.


