Um mundo feito de sons e percepções que muitas vezes os chamados ''normais'' não prestam atenção. Para os deficientes visuais se orientarem no mundo, cada detalhe ruído, curva, textura faz diferença. Mas a grande ''pedra'' no caminho dessas pessoas continua sendo a falta de respeito por quem é ''diferente''.
Cego, Anderson Lemes dos Santos, de 21 anos, usa ônibus, sozinho, pelo menos três vezes por dia para sair e voltar para sua casa, no Jardim das Américas, na Zona Norte de Londrina. Também faz aulas de computação, estuda em um curso supletivo e faz natação três vezes por semana. Rotina bem parecida que a de qualquer outro jovem, com apenas uma diferença a deficiência visual, que não o impediu de fazer nada disso, e nem mesmo de sonhar em um dia ser atleta profissional.
Mas a exemplo do personagem cego Jatobá, da novela América, atualmente no ar na Rede Globo, não gosta de ser tratado como se não tivesse vontade própria. ''Não gosto quando as pessoas não falam diretamente comigo, perguntam para quem está do lado o que eu quero. Isso já aconteceu muito. Hoje já não deixo mais acontecer. Chego nos lugares e já me identifico, falo bom dia, boa tarde, boa noite'', conta.
Na novela, o personagem interpretado pelo ator Marcos Frota mostra como um deficiente visual pode ser autônomo trabalhar, namorar, visitar os amigos, andar na rua e praticar esportes. Mas, na novela, também há o ''mau exemplo'', com a personagem Flor, da atriz Bruna Marquezini, que é impedida pela mãe de sair de casa, ''para não se machucar''. Para Santos, o tema poderia até ser mais explorado. ''Com o poder de alcance que tem a televisão, é uma maneira de diminuir um pouco o preconceito''.
A diretora pedagógica do Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos (Ilitc), Edna Rangel, afirma que não é difícil encontrar exemplos como o da menina Flor da novela. Isso por conta da família agir de maneiras extremas, quando nasce uma criança cega ou superprotegendo, ou rejeitando. ''Se a família superprotege, cria uma pessoa que não vai querer fazer nada, que teve tudo 'na mão' e não vai atrás da sua autonomia. Ela vira o 'dono do mundo'. Mas pode acontecer o contrário, a rejeição, e a família deixar a pessoa 'abandonada' à própria sorte, com o pensamento de quanto menos ela fizer, quanto mais ela ficar 'quietinha', melhor'', exemplifica.
Na própria instituição eles receberam há pouco tempo uma criança que a família mantinha em casa, só ''assistindo'' televisão. ''É o medo de expor o filho, de deixar ir para a rua e acontecer alguma coisa. Tem gente, que depois de aprender noções para se locomover e se 'virar', fala: 'não imaginava que cego podia trabalhar'', relata.
E é justamente por ''não imaginar'' que podem trabalhar, que a falta de cuidado com o estudo vai fazer diferença lá na frente. ''Um dos problemas que enfrentamos para inserir o deficiente no mercado de trabalho é a falta de escolaridade, por isso estamos buscando capacitação'', afirma a professora do Ilitc Shirlei Mara Sombatti, ela mesma cega e um exemplo de perseverança.
O importante, segundo Shirlei, é aceitar que há, sim, algumas limitações para o cego. Diferentes, mas não maiores do que as limitações que qualquer outra pessoa enfrenta. ''Se a pessoa não aceitar que é cega, vai ficar tentando mostrar que 'enxerga' e jamais pedir ajuda. É primordial aceitar que é deficiente, e que tem horas que a gente tem que pedir ajuda sim'', afirma.

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