Ainda menino, Santos Dumont decidiu que um dia voaria e já imaginava a sensação de liberdade que planar no céu iria provocar. E é essa mesma sensação que milhares de aventureiros buscam quando se lançam de penhascos, acoplados em cadeiras, sustentados por imensas asas, capazes de mantê-los por horas no ar.
  A experiência foi vivida num fim de semana de dezembro por dezenas de pilotos, vindos da região e de algumas cidades do Brasil, para a inauguração oficial da rampa em Tamarana (62 Km ao sul de Londrina), descoberta por integrantes da Associação de Vôo-Livre do Norte do Paraná (AVLPN). ‘‘Procuramos muito por um lugar como este, bem pertinho de Londrina’’, afirma o presidente e instrutor da Associação, Ederson Gil de Mello, mais conhecido como Gil Glider, apelido que herdou por causa da paixão pelo vôo de parapente ou
paraglider.
  A altitude da cidade, de 753 metros, propiciou a construção da rampa, que tem a pretensão de ser o melhor local para a quebra de recordes em todo o Estado. Do alto da montanha até o chão são 320 metros de desnível, a 1.046 metros do nível do mar. Dois morros garantem a formação térmica num fundo de vale, necessária para sustentar o parapente no ar.
  A aventura começa antes mesmo de chegar ao local da rampa. Depois de entrar na fazenda Arroio Grande, distante 20 Km de Tamarana, nossa equipe se encontra com os primeiros pilotos da região, a maioria profissionais liberais, apaixonados por aventuras.
  Subimos na carroceria de um trator traçado, capaz de percorrer 20 quilômetros morro acima, numa estrada aberta há poucos dias, para chegar ao cume da montanha. Em alguns momentos, a sensação é de que o trator não consiga atingir o objetivo, tamanha a inclinação da estrada. Só impressão.
  No meio do caminho, porteiras são abertas para dar passagem ao trator, buracos são superados e a lama em alguns locais parece impedir o trator de passar. Apesar da apreensão, do alto é possível observar a beleza do local, cercado de mata e de um verde de tirar o fôlego.
  Já bem próximo da rampa, a euforia toma conta dos pilotos, que festejam a chegada. As birutas instaladas no local indicam que temos vento e que os vôos vão ser possíveis. É, porque voar de paraglider ou parapente, como é conhecida a vela (asa), depende da ‘‘vontade’’ do vento.
  ‘‘Rampa aberta’’, grita o instrutor. E os pilotos vão se posicionando, um ao lado do outro, mantendo uma distância suficiente para armar as velas. De dentro das imensas mochilas, pesando 20 quilos, vão retirando as asas, feitas de material plástico ou de náilon, que são abertas no chão. A própria mochila se transforma em cadeira, onde o piloto fica sentado durante todo o vôo.
  O primeiro grupo a voar é formado por pilotos com poucos meses de experiência. Eles fizeram o curso com duração de três meses e se aventuram de forma segura, em vôos conhecidos como prego, quando saltam do morro, voam por alguns minutos e logo atingem o alvo.
  Mas a saída não é tão simples. São várias as tentativas e, muitas vezes, com o pouco vento (a velocidade se altera a todo instante), o vôo precisa ser abortado. Aí, é só girar os braços, num movimento preciso, que a vela, ligada a várias cordas, retorna ao chão. Força e paciência para iniciar todo o processo novamente. Em muitos casos, os pilotos chegam a se arrastar pelo chão até conseguir ganhar altura. ‘‘É preciso ter coragem e determinação, mas é um esporte bastante seguro’’, afirma Gil Glider.
  Ainda sem muita estrutura, o local possui muitas pedras e plantas secas (espécies de samambaias) que acabam se enroscando nas cordas e impedem o vôo. Os pilotos reclamam, mas uns ajudam os outros, desenroscando os galhos e empurrando o colega morro a baixo. E ninguém se importa com as dificuldades, afinal, tudo ali é aventura. A sensação do vôo e de liberdade, mesmo que por apenas poucos minutos, compensa todo o esforço.
  Além do vôo prego, tem também o vôo de lift, onde o piloto fica planando próximo à montanha, podendo, inclusive, retornar ao topo da montanha sem descer. E o vôo cross country, onde podem ser percorridas distâncias de até 100 km. ‘‘Em alguns casos, os pilotos ficam até quatro ou cinco horas voando, sem retornar à montanha’’, explica Gil Glider. Nestes casos, os pilotos profissionais e mais experientes desaparecem entre as nuvens. ‘‘São vôos completamente seguros, mas é preciso todo um preparo para voar’’.
  Um grupo de pilotos profissionais, vindo de Curitiba e de algumas cidades da região, realizou a façanha já no período da tarde, horário mais adequado. De baixo, era possível avistar o colorido das asas que sustentavam os aventureiros do céu.
  Os pilotos atingiram uma altura de 1.300 metros da rampa. ‘‘Quando entram nas nuvens, a gente diz que eles entubaram’’, define Gil Glider. Lá no alto, eles ficaram planando até que o vento
permitir.

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