Quando o trabalho não pode parar
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terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
Não só a história de Cristo é marcada pela recompensa e salvação depois do sacrifício. Se para o Messias ele foi escrito na carne e tem caráter místico, para tanta gente é muito mais terreno, tão sofrido quanto e tem um nome: trabalho. "Sei que eles falam do proceder, eu vejo quem trabalha andar no miserê", diz a canção de Wilson Batista, que faz uma ode ao fato de não se trabalhar. Pegar no batente em dias de festa, então, seria algo impensado para o sambista. Naturalmente, não o é para muita gente.
Há quem encontra prazer, recompensa ou felicidade no fato de sacrificar uma noite de Natal com família para dedicá-la ao trabalho. Se o trabalho é necessário, então que seja feito de forma que amenize o fato de se estar de plantão nos feriados mais importantes do ano: Natal e virada de ano. O chefe de cozinha Gildo Alves de Paula, 35 anos, é um deles. Casado e pai de quatro filhos, não reclama - mesmo que tenha trabalhado no Natal e que também vá estar ocupado durante a passagem de ano.
Há 15 anos, desde que começou a trabalhar, é a mesma coisa: cozinha para a ceia de pessoas que decidem comemorar as datas fora de casa. Hoje, Gildo comanda a cozinha do restaurante de um hotel em Curitiba. Neste Natal, ele cozinhou para, pelo menos, 100 pessoas. Na virada do ano, a mesma coisa. Garantir a ceia de tanta gente acaba tornando-se um prazer para o chefe. "O lado positivo é a recompensa de satisfazer as pessoas com trabalho e bom atendimento. Além disso, estou fazendo o que gosto", explica. E o gosto transparece em outra declaração: "trabalhar nestas datas é fechar o ano com chave de outro, pois o cardápio é sempre mais elaborado, o jantar mais requintado e as pessoas estão em clima de festa".
Ele conta que, mesmo não se martirizando tanto por precisar trabalhar nos feriados, quem sofre mesmo é a família. "O Natal é só mais uma data que passo trabalhando. Em todas as outras, há eventos: dia das mães, dos pais, Páscoa", revela, já acostumado. Já para a mulher e os filhos, é mais uma data que o pai não está presente. Mas o chefe leva a dificuldade com bom humor. "Já deixo a moto ligada, virada para rua. Quando a ceia acaba no hotel, vou correndo para casa pegar a festa lá", brinca.
Plantão médico não é só o nome de uma famosa série de televisão, é a condição de muitos profissionais da saúde nos dias de festa. É o caso do cardiologista e diretor clínico de um hospital em Curitiba, Luiz Fernando Kubrusly. No dia 24 de dezembro, ele se preocupava se a ceia para funcionários e pacientes do hospital iria dar certo ou não. Ele estaria de plantão naquele dia. Há 30 anos é a mesma situação: ou plantão no Natal ou na virada do ano.
Como todos os outros, lamentava o fato de ter, mais uma vez, que estar longe da família. Mas o tempo ensinou que o contato com o enfermo naquele momento era uma forma de retribuição. "O sacrifício é apagado pelo fato de suprir a carência das pessoas. Muitos pacientes agradecem a visita e a gente se sente recompensado", diz Kubrusly.
O médico revela que as pessoas que trabalham nesses dias fazem charme dizendo que é sacrifício, mas no final "acaba sendo gostoso", como ele mesmo comenta. "Ganhamos uma retribuição, que é ver o paciente comovido. De manhã, quando vai embora, nenhum médico sai revoltado por ter trabalhado no Natal", conta.
O mesmo acontece com o major Antônio Zanatta, há 22 anos na Polícia Militar (PM). Este ano, mais uma vez, está de plantão. Se por um lado ele sente ao ter de deixar a família nas festas, por outro sabe da importância da sua profissão para a ordem e segurança da sociedade em um período em que as ocorrências policiais aumentam. "A riqueza é nós nos depararmos com ocorrências que, no final, vão poder salvar vidas. Isso depende muito de nosso trabalho", pondera.
E isso já aconteceu com ele. Major Zanatta recorda de um Natal em que fazia a patrulha nas ruas e, passando por um bairro residencial, viu as festas acontecendo em várias casas. Naquele o momento, o coração seguro do homem da lei amoleceu. "Foi difícil continuar o trabalho. A emoção era muito grande", relembra. Em seguida, porém, uma chamada abalou o momento melancólico. Em poucos minutos, estavam socorrendo vítimas de um acidente de trânsito. "Acabamos salvando a vida daquelas pessoas. Isso aconteceu há muito tempo, mas me marcou muito", recorda.
Se trabalhar dignifica o homem, há quem mereça o reino dos céus duas vezes.


