É com lágrimas nos olhos que dona Emília Souza Farias, 64 anos, lembra como era excluída pelas pessoas por causa da hanseníase. ''Eu era maltratada. Quando me viam, as pessoas saíam ligeiro. Me dava nervo, ficava chateada. Falavam que eu tinha a doença do sangue. Mas sempre fui limpinha. Tinha gente pior que eu, sem orelhas, sem nariz. Eu não escondia de ninguém que era doente'', conta.
Dona Emília contraiu a doença quando tinha 10 anos de idade. Na época ela morava no distrito rural Lambari, localizado da região de Sapopema e não havia tratamento eficaz para a doença. Ela lembra, que uma vez seu pai a levou até Londrina para ser tratada. ''O médico queria que eu ficasse lá com ele para ele cuidar de mim. Ele me ofereceu uma boneca. Eu fiquei com vontade, mas amava muito meu pai e voltei pra casa com ele. O médico, com dó do meu pai, deu para gente alguns remédios''.
Anos mais tarde, dona Emília se casou com Nazareno Camargo Farias, teve 11 filhos. Apesar do medo que dona Emília sentia em passar a doença para os filhos, nenhum deles foi contaminado, nem o marido. ''Meu velho sempre me zelou muito. Várias vezes fui picada por cobra. Uma vez a cobra deu oito botes de uma vez só no meu pé e eu não sentia nada. Nazareno deixava de comprar sapato pra ele, para comprar pra mim. Meu sapatinho de borracha enchia de água dentro. Acho que era do veneno da cobra'', lembra.
Dona Emília foi uma das primeiras pessoas com hanseníase a ser tratada pelo padre Haruo Sassaki. Hoje, ela mora numa pequena casa de madeira, cedida pelo padre, localizada próximo ao centro Humanitas. Curada da doença, carregando apenas as sequelas que ficaram nas pontas dos pés e das mãos, dona Emília se emociona ao falar da ajuda que recebeu. ''Quando o padre foi a primeira vez na minha casa, enchi uma garrafa d'água e pedi pra ele benzer. Meu velho tava doente e numa semana ficou bem. Ele me deu comida, roupas, e um rosário para cada um de meus filhos. Ele cuidou de mim, ele é meu pai'', finaliza. (F.B.)

mockup