Falta de tempo para realizar tudo o que gostaria... Resultado: impaciência, mau humor e raiva. Falta de dinheiro e emprego... Resultado: impotência e tristeza. Falta de atenção para os filhos... Resultado: culpa. Diariamente, milhares de pessoas experimentam sensações como as descritas.
É possível que você, leitor, tenha se identificado com algumas delas. Mas, com licença, permita uma pergunta: identificou-se com a situação proposta ou com a emoção que ela gera? Outra pergunta: o ser humano sabe lidar com as próprias emoções? Especialistas dizem que não.
A psicoterapeuta corporal, Márcia Sel, defende que ''não somos educados para sentir''. Afirma que a vida moderna nos rouba o contato com a sensorialidade, facilmente perceptível quando consideramos que nossas decisões são sempre tomadas com base na racionalidade, sobressaindo sobre o proibido campo das emoções. ''Quando nascemos, razão e emoção estão completamente misturadas. Ao longo do desenvolvimento, precisamos organizar cada uma delas. A questão é que não aprendemos a lidar com as sensações, apenas como os raciocínios lógicos'', explica.
O médico neurologista Antônio Carlos Costardi complementa: ''A cultura da modernidade é factual. Repare que sempre nos baseamos apenas nos fatos para contar uma história a outra pessoa. Nunca queremos saber o que ela sentiu no momento em que aquilo aconteceu'', esclarece.
Os efeitos disto, segundo ele, é que nunca aprendemos a lidar com a emoção e, por consequência, não percebemos o homem como um todo. ''Isto facilita que determinadas doenças apareçam, e médicos e pacientes tratem apenas dos sintomas, nunca chegando ao real motivo da dor'', argumenta.
O comerciante Odair Carlos Cereda, 55 anos, entende bem o que isto quer dizer. Durante muitos anos teve crises de gastrite e viu surgir pelo corpo furúnculos. Mais tarde, aos 30 anos, entrou em depressão. ''Não tinha vontade de fazer absolutamente nada. Era horrível, mas foi um oportunidade para descobrir que o problema era interno e não o que eu via no meu corpo físico. Era coisa da alma''.
Hoje, seguro, Odair trilha o caminho da memória e relembra épocas em que viveu uma repressão grande. ''Vivi na ditadura. Não pude fazer muitas coisas que queria. Experimentar sensações. Dizer coisas que gostaria. Isso tudo ficava dentro de mim e saía em forma de doença'', reconhece. Para apagar de vez suas tristes lembranças, transformou-as em cinzas. ''Queimei tudo que possuía sobre essa marca negra da história brasileira''.
Em família é casado e pai de três filhos diz que sempre recebeu apoio durante as crises de depressão. ''Minha esposa estava ao meu lado, mas não adiantava. Era eu que precisava reconhecer que reprimia sensações e que elas precisavam sair''.
A psicoterapeuta corporal explica que o equilíbio entre emoção e razão, se não acontecer naturalmente, precisa ser estimulado. ''Se a razão está bloqueando a emoção, o próprio corpo físico vai reagir para mostrar os limites que temos. É muito comum ver pessoas que mudam completamente de vida depois de passar por uma doença grave. É o corpo impondo um basta'', afirma.
Márcia explica que o ser humano é constituído de três campos: físico, emocional e espiritual, e que o equilíbrio entre eles vai possibilitar uma vida plenamente saudável e bem resolvida para o ser humano. ''Independentemente da religião, precisamos reconhecer que há algo que nos transcende e que influi diretamente na nossa vida. Precisamos aprender a lidar com o corpo (emoção e razão) para incluirmos nossa preocupação com a espiritualidade'', afirma.
A educadora Iran Loureiro Cardoso Menegane, 50, garante ter conseguido identificar que suas aftas na boca eram resultado de uma disfunção ''situada'' além do seu organismo. ''Sempre fui uma pessoa muito racional e crítica. Por conta disso, dava respostas cortantes, que às vezes feriam as pessoas. Penso que as aftas foram uma forma do meu corpo me mostrar isso'', conta. Mais comedida, ela começou a ponderar o que dizia às pessoas, resultando numa diminuição gradual das feridas, até seu completo desaparecimento.
Para Costardi, além de reconhecer a própria espiritualidade o que ele também julga essencial , um caminho para uma vida mais equilibrada é descobrir uma linguagem própria para expressar os sentimentos. Ele argumenta que é preciso reconhecer que os problemas dos homens não estão nos fatos, mas no que se sente quando eles são vividos. Orienta que, ao educar os filhos, os pais precisam acessar os seus sentimentos. ''Quer evitar que o filho use drogas? Além de argumentos lógicos, é preciso alcançar as emoções. Explorar esse obscuro campo'', sugere.
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