Quadro a quadro
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quinta-feira, 24 de abril de 1997
Fabiano Camargo 
DivulgaçãoO filme O Que É Isso Companheiro?, com direção de Bruno Barreto, tem estréia nacional no Festival de Vídeo de CuritibaVoltando à tona após um período de imersão em correntezas de inatividade, o cinema brasileiro vem passando por um festejado renascimento. Câmeras estão sendo acionadas como nunca nos últimos anos e o público se reencontra com a produção nacional, fato comprovado pelo sucesso de filmes como O Quatrilho. Dentro deste contexto, novas idéias são fundamentais. Com a proposta de se transformar num novo canal para expressá-las, inicia na próxima segunda-feira o Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba.
O evento apresenta três braços principais: um quadro formado por oito longa-metragens, incluindo duas estréias nacionais (O Que É Isso Companheiro?, de Bruno Barreto e Ed Mort, de Alan Fresnot), uma mostra competitiva de curtas e médias metragens em vídeo e cinema e uma série de oficinas (veja programação completa na página ao lado).
Participam filmes brasileiros e de países de língua espanhola. A intenção é colocar Curitiba na rota do reaquecimento da produção cinematográfica nacional, a exemplo do que aconteceu, no campo das artes cênicas, com o Festival de Teatro de Curitiba. Atualmente, são realizados outros 12 festivais de cinema no país.
Já existe uma produção de cinema na cidade e no estado com qualidade, mas, ao mesmo tempo, o que é feito não chega ao público. Está na hora deste talento submerso sair da toca, diz a diretora executiva do Festival, Cloris Ferreira. Produtores e cineastas estavam carentes de um evento como este, que concentre a produção e possa refletir em que nível ela está. Queremos lançar jovens nomes e criar uma união das pessoas que trabalham nas áreas de vídeo e cinema. No quadro atual, os cineastas locais são um grupo sem tela. Produzem, mas os filmes ficam nas prateleiras. E com as mostras especiais, também buscamos uma integração da produção latinoamericana.
DivulgaçãoSol de Outono, produção argentina dirigida por Eduardo Mignogna, integra a mostra especial do Festival
Segundo a diretora, a inclusão de estréias nacionais mostra que o festival já nasce forte. Curitiba mantém a tradição de ser uma cidade crítica e isso contribui para um Festival como o nosso, que busca, mais do que mostrar cinema, discutí-lo. Para a mostra competitiva de filmes curtas e longas, que foram divididos em duas categorias básicas - vídeo e cinema (16 e 35 milímetros) -, inscreveram-se 180 produções de todo o Brasil e vários países latinoamericanos.
Tratam-se de produções recentes: o regulamento exigia que todos os filmes fossem rodados a partir do segundo semestre de 1995. A partir deste quadro inicial, o júri de seleção, coordenado pelo cineasta Ruy Guerra, escolheu 24 em vídeo e 24 em cinema. Cinco produções estrangeiras foram classificadas. Serão premiadas as melhores obras de ficção, os melhores documentários e os melhores filmes de animação.
Também foi criada uma categoria especial, a Festival dos Festivais, com 17 filmes, que vai eleger os melhores entre filmes já premiados em outros festivais - serão duas votações, a dos críticos e a do público, que receberá cédulas nas salas de exibição para participar da escolha. O júri da premiação contará com os produtores e diretores: Carlos Reinschenback, Sergio Muniz, Tete Moraes, Isa Castro e José Louseiro (Brasil), Eva Pipovarski (Argentina) e Tatiana Gaviola (Chile).
Para diferenciar-se dos 12 festivais de cinema que já existem no país, o evento de Curitiba está investindo na formação de novos profissionais. Mostrar a produção não basta. Temos que trabalhar na raiz do processo criativo, suprindo a carência que existe na área do ensino de como fazer cinema e vídeo. As sete oficinas, que abordam os temas direção, produção, iluminação, trilha sonora, som e mixagem, fotografia e câmera e realização - todas com inscrições já esgotadas - tiveram 260 alunos inscritos.
A formação técnica, entretanto, não é o único problema enfrentado pelas artes audiovisuais na cidade. A falta de apoio e patrocínio é um mal crônico. Para o Festival, orçado em R$ 500 mil, procuramos exaustivamente patrocinadores entre as empresas da cidade e do estado, mas não conseguimos ninguém que acreditasse no projeto, revela Cloris Ferreira. É uma pena, mas entre o empresariado local ainda existe uma mentalidade um pouco provinciana. É grande o medo de ousar e de se expor realizando o novo.


