A história de uma cidade se faz das vivências de todos os cidadãos que passaram por ela, do lavrador ao empresário, do soldado ao poeta, do aluno ao professor, do mendigo ao playboy. Mas para entrar para a história com ''H'' maiúsculo aquela que se torna oficial através de documentos guardados nos museus e bibliotecas, retratos em galerias, homenagens públicas um indivíduo tem que protagonizar um fato considerado de relevância coletiva. Esse cidadão não precisa ser, necessariamente, um desbravador, um político, um militar condecorado: basta, em muitos casos, que seja ''o primeiro''.
Do contrário, como explicar que uma garotinha de apenas oito anos tenha sido escolhida para inaugurar a Praça Marechal Floriano Peixoto, conhecida como ''Praça da Bandeira'', no Centro de Londrina, em 7 de setembro de 1943? Ela ainda nem tinha idade para ser autora de feitos gloriosos, mas já havia se tornado personagem histórica ao ser a primeira cidadã a ter seu nascimento registrado no município. Está lavrado no livro 1, folha 1, termo 1, do primeiro cartório londrinense: Nágila Aiub Hauly, filha de Salomão e Jalila Hauly, nascida às oito horas de 28 de janeiro de 1935, no distrito de Nova Dantzig, que hoje é Cambé (13 km a oeste de Londrina).
O registro foi feito com quase quatro meses de atraso na verdade, Nágila nasceu em 30 de setembro de 1934 mas marcou o início da cidadania em Londrina. Talvez por isso, seu Salomão se mostrasse tão ansioso pela inauguração do Cartório de Registro Civil do 1º Ofício, a ponto de percorrer inúmeras vezes o trajeto cheio de barro que separava Nova Dantzig do Centro de Londrina, que naquela época levava pelo menos uma hora. ''Meu pai contava que, quando estavam construindo o cartório, ele ia quase todos os dias a Londrina, para ver se já estava pronto. Ele até injetou dinheiro naquela obra'', diz Nágila, hoje com 70 anos.
A inscrição do sobrenome Hauly hoje mais conhecido por causa de Luiz Carlos, deputado federal e candidato à prefeitura de Londrina nas três últimas eleições, caçula dos sete irmãos de Nágila na história da cidade tem origens anteriores ao registro da primeira cidadã. Salomão e Jalila, ele do Líbano, ela filha de libaneses nascida em São Carlos (SP), chegaram em 1933 a Londrina e durante 50 anos trabalharam com comércio na região. Desde o começo, estabeleceram-se em Nova Dantzig, distrito que seria emancipado em 1947, vindo a se tornar o município de Cambé. É por isso que as duas cidades prestam homenagem ao casal de pioneiros.
Apesar de ainda hoje morar no município vizinho, Nágila afirma que sempre foi mais ligada a Londrina. ''Passei muitos anos no interior de São Paulo, meus quatro filhos nasceram lá. Mas vinha sempre visitar Londrina, nunca deixava de acompanhar o que acontecia na cidade. Ainda hoje, só ouço as rádios de lá, faço compras e passeios lá. Meus nove netos são londrinenses'', ressalta. Ela reconhece, contudo, as reverências prestadas à sua família em Cambé, onde o sobrenome batizou ruas e instituições. Nem dona Eufrozina, a parteira que ajudou a mãe dela a trazê-la ao mundo, escapou das homenagens, dando nome a uma creche do município.
Entre as dezenas de fotos publicadas em jornais que arquiva em uma pasta, Nágila dá destaque às da inauguração da Praça da Bandeira, fornecendo as legendas oralmente. ''Aqui sou eu no colo do ex-prefeito, capitão Miguel Blasi. Ali do lado, é o famoso capitão Pimpão (Aquiles Pimpão Ferreira, também ex-prefeito de Londrina). Aquelas meninas são as bandeirantes''. Da certidão de nascimento que tantos louros lhe trouxe, Nágila só guarda uma cópia feita por scanner. O original, como não poderia deixar de ser, está no Museu Histórico de Londrina.

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