São Paulo - Cristal de Luna saiu de sua cidade natal, Lucélia no interior de São Paulo como uma reencarnação de Geni. Voltou dois anos depois, como uma reedição de Tieta. A transformação aconteceu assim: décima filha de uma família pobre, balconista, estudante de enfermagem, ela analisou suas opções e resolveu adotar o escambo sexual como forma de vida. Em poucos meses, notou os olhares desconfiados da vizinhança. Mais algum tempo, e eles viraram ofensas pesadas.
Cristal juntou suas coisas e mudou para São Paulo. Fugiu, mas mesmo assim achou que não tinha o que esconder. Foi a programas de entrevistas na televisão, falou em rádios e ganhou perfis em revistas. Em todos os lugares, encheu o pulmão e disse: ''Eu sou garota de programa''. A bordo da fama recente, fez uma visita à sua cidade. ''Encontrei faixas de boas-vindas'', comemora.
Morena, voz de criança, Cristal integra o grupo de garotas de programa que aprenderam a usar o culto às celebridades para conseguir simpatia social. Em uma movimentação que pareceria improvável há alguns anos, elas aparecem em programas de auditório, viram musas da internet e vão a emissoras de rádio proclamar em bom som o que fazem para viver. Acabam conseguindo varrer a hostilidade que antes sentiam. Algumas até já deram autógrafos por aí.
Nos últimos dois meses, Cristal participou de três debates na televisão. Pontificou em temas espinhosos como: ''a prostituição deve ser regulamentada?''. Com calça de popozuda e tentando fazer ares de socióloga, ela não tinha opinião formada. Mas enrolou direitinho. Na semana passada, saiu para fazer compras na Avenida Paulista, na região dos Jardins, em São Paulo. Foi reconhecida por um casal, respondeu a acenos. Ficou sem graça ao ver que crianças perguntavam aos pais quem ela era, mas no fim saiu dali feliz da vida. ''As pessoas hoje me aceitam. Até meus pais sabem. Minha mãe às vezes diz pra eu sair dessa vida, mas também não me condena'', afirma.
A exposição das garotas de programa e a reação do público poderia ser interpretada como mais um sinal da liberalização de costumes dos últimos anos. Em tempos em que a Parada Gay arrasta milhões de pessoas dispostas a ir às ruas proclamar sua opção sexual ou que posar nua em revistas masculinas deixou de ser sinal de depravação e se transformou em caminho legítimo para moças que querem comprar um apartamento , até que faz sentido achar que a prostituição está em vias de conseguir status de profissão como qualquer outra.
A vida, no entanto, não é bem assim. ''A sociedade cultua a celebridade independente do que ela faz. Essas garotas ficam famosas não porque as pessoas aceitam o que elas fazem, mas porque conseguem reconhecê-las'', diz a psiquiatra Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

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