Propaganda esconde patrimônio arquitetônico
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sábado, 26 de junho de 2004
Fernando Rocha Faro<br>Reportagem Local 
Um patrimônio escondido. Esta é a avaliação do arquiteto e professor universitário Antonio Castelnou sobre as fachadas em estilo art déco encobertas atualmente por outdoors e luminosos de propaganda na rua Sergipe e outras importantes vias comerciais da Área Central de Londrina. ''A cidade está sempre se renovando. A novidade faz parte do caráter londrinense. Só que é necessário ter consciência de que, quanto mais eu mudo, mais preciso ter algumas âncoras'', avalia.
Uma destas âncoras, na opinião de Castelnou, é a preservação do estilo arquitetônico nas ruas centrais. O art déco surgiu em Londrina em substituição à arquitetura de madeira. Com o uso da alvenaria, as construções adotaram o estilo déco ou clássico, utilizado nos casarões ecléticos dos barões do café. A maior parte das obras em estilo déco é da década de 1940 e utilizado principalmente em bares e no comércio em geral. Predominava em Curitiba e São Paulo. Hoje, muitos exemplares londrinenses já foram perdidos. Outros, sofreram um processo de descaracterização. Para Castelnou, é possível ''conciliar o progresso comercial com a preservação do valor histórico da arquitetura original.''
As principais características do déco são ornamentos geométricos contornando as aberturas (portas e janelas), racionalismo primitivo (protoracionalismo) e marcação das pilastras. As construções são de alvenaria, funcionais, com marcações das pilastras e recortes. A ocupação pelas casas comerciais ignorou a riqueza de detalhes do estilo arquitetônico. As fachadas foram encobertas por painéis, que descaracterizam a causam poluição visual. Castelnou acredita que a própria linguagem déco poderia ser usada como atrativo.
Ele cita o exemplo de Miami, nos Estados Unidos. Nos anos 50, um movimento lutou pela preservação da arquitetura déco. Hoje, são mais de 800 prédios tombados. É o maior museu ao ar livre do estilo. ''Tiraram os luminosos e deixaram a própria arquitetura chamar os clientes. São colocadas placas programadas, que seguem os contornos e não encobrem as fachadas'', explica. ''Se você tirasse toda esta 'sujeira', teríamos esta decoração melhor definida'', acrescenta.
Uma limpeza da paisagem da Sergipe dependeria, de acordo com o arquiteto, de iniciativa do Poder Público Municipal. Segundo ele, a Secretaria de Cultura deveria elaborar uma legislação para incentivar a retirada das placas de propaganda. ''Poderíamos explorar a própria arquitetura como elemento de marketing'', sugere. O projeto serviria para normatizar as intervenções nas fachadas. A medida, na prática, seria equivalente ao tombamento da paisagem urbana. Trechos da avenida Paraná e da rua Quintino Bocaiúva também devem ser incluídos no sistema de preservação arquitetônica.
Na opinião de Antonio Castelnou, a paisagem preservada pode ser utilizada como atrativo turístico. ''O turismo não precisa ser só de belezas naturais como o Parque Arthur Thomas'', constata. Em seu livro 'Art Déco em Londrina', editado com apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura, o arquiteto analisou 30 obras, selecionadas de um total de cerca de 200. ''O objetivo da publicação é despertar a pesquisa nesta área'', completa.
Segundo a diretora de patrimônio histórico e cultural Vanda de Moraes, a Secretaria Municipal da Cultura vai fazer um inventário das fachadas da Sergipe e de outras ruas importantes do Centro da cidade. Após a conclusão do estudo, poderá ser definida a forma de apoio aos proprietários dos imóveis. ''Pode ser via isenção ou redução de impostos, por exemplo'', comenta Vanda.
A própria secretaria, que deveria ser responsável pelo incentivo à preservação, teve a própria sede descaracterizada, na visão do professor Castelnou, por um painel colocado na fachada do prédio em 1983.


