Prontas para a guerra urbana
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de abril de 2008
Equipe da Folha 
O bom senso nos diz para nunca reagir a um assalto, principalmente se houver ameaça com arma de fogo. Entretanto, há situações em que, se prestarmos um pouco mais de atenção ou adotarmos uma atitude menos passiva, é possível escapar da posição de vítimas em potencial.
Este é o argumento básico de um curso que tem as mulheres como público-alvo e que foi implantado recentemente em Curitiba. Realizado durante um dia inteiro, normalmente aos sábados, o curso inclui técnicas de krav magá o treinamento utilizado pelos soldados do exército de Israel mas utiliza também informações da Programação Neuro-Lingüística (PNL) e de programas motivacionais. Tudo para alcançar o principal objetivo: fazer com que as representantes do tal sexo frágil percam o medo de se machucar e tenham a chance de estar preparadas para qualquer situação de emergência.
Estou com marcas roxas por todo o corpo, mas valeu a pena, conta a empresária Tatiane de Araújo, 34 anos, para quem a experiência serviu para mudar muita coisa em seu cotidiano. Não tinha idéia de como seria. Meu marido treina nessa academia e um dia me disse que haveria um treinamento para mulheres lá. Achei que fosse uma palestra, lembra ela.
De teoria, porém, o curso tem muito pouco. A maior parte das seis horas de treino é dedicada a simular sobre o tatame da ampla sala espelhada uma série de situações que atormentam o dia-a-dia nas grandes cidades, como assaltos, tentativas de seqüestro, de estupro, de agressão física e de ameaças de todo o tipo. Não por acaso o lugar onde é ministrado o curso, no Centro da capital, tem o nome de Academia de Sobrevivência Urbana. Nada mais apropriado.
Na avaliação de Tatiane Araújo, porém, o curso vai mais além. Nós somos pegas de surpresa em simulações muito reais. De repente, percebi que tinha muita dificuldade de bater, foi um choque interior. Vi que precisava aprender a me superar e hoje me sinto muito mais segura diante da vida, enfatiza a empresária.
Assumir uma posição mais confiante diante de si mesma e de problemas inesperados é a maior dificuldade para as alunas, segundo o coordenador da academia.
As mulheres, em geral, querem sempre proteger, se consideram frágeis. É por isso que trabalhamos os aspectos psicológicos no treinamento, não apenas os aspectos físicos, enfatiza Gerson Almeida, 46 anos.
Ele tornou-se especialista em segurança pessoal depois de ver a família ser vítima de assaltantes, dentro de casa, quando tinha apenas 15 anos de idade. A partir daquele dia decidi que não seria mais vítima. Comecei a estudar o assunto segurança e a treinar artes marciais. Mas, acabei optando pelo krav magá porque a técnica não é de combate, é de auto-defesa, diz o coordenador, que também realiza palestras sobre defesa pessoal e já ministrou cursos para a Secretaria de Estado de Segurança Pública. O curso específico para mulheres foi aperfeiçoado durante sete anos antes de ser lançado.
Almeida, assim como as autoridades policiais, ressalta que o objetivo do treinamento não é fazer com que as pessoas sejam homens ou mulheres passem a reagir a assaltos, colocando a vida em risco. Defesa pessoal é uma questão de responsabilidade. Nós trabalhos com prevenção, argumenta.
As técnicas ensinadas pela academia também ajudariam as pessoas a conquistar equilíbrio, evitando reações desastrosas diante de um caso de assalto, por exemplo. Quem se inscreve passa, antes do início do treinamento, por uma entrevista onde são avaliados aspectos psicológicos e físicos.
Nunca fui assaltada, mas agora estou mais preparada para qualquer problema que possa surgir. A minha concentração aumentou. Nesse curso, a mulher entra com medo e sai mais segura, afirma Íris Marconcin, 20 anos, outra participante da aula. Ela garante ter descoberto uma força que não sabia que tinha, referindo-se à etapa do treinamento em que as mulheres são levadas a liberar a raiva batendo contra colchões ou reagindo aos ataques simulados realizados pelos instrutores, que desempenham o papel de bandidos. O importante ali é não sentir compaixão e bater mesmo, resume Íris.


