Enquanto a maioria dos leitores usa a seção de cartas para fazer críticas, a escrivã de polícia Rosane Araújo, 51 anos, geralmente faz elogios. A última carta comentou a beleza de um espetáculo do Filo na cidade. Quando não está às voltas com inquéritos e denúncias de crimes, Rosane pinta quadros, cerâmica e faz peças de argila. O olhar observador e atento de quem convive diariamente com a violência não perdeu a sensibilidade: ''uma das minhas cartas mais recentes foi para chamar atenção para uma placa envelhecida mas muito bonita que tem lá no parque Arthur Thomas. Eu escrevo para comentar coisas que valem a pena ser vistas'', diz Rosane.
Mãe de dois filhos, funcionária da polícia e artista plástica, Rosane arruma tempo para ler o jornal inteiro, todos os dias. E garante que lê tudinho, até matérias de esporte: ''não escapa nem o obituário'', brinca. O hábito ela herdou o pai, outro leitor voraz, que também escreve, mas ao contrário da filha, guarda tudo em casa.
Rosane já nem lembra qual foi a primeira carta que escreveu. Pudera, lá se vão quase 10 anos, segundo ela. Depois da Folha, ela tomou gosto pela coisa e hoje escreve cartas para vários outros jornais e revistas. Já ganhou até uma coleção de livros como prêmio por ter participado de um concurso num jornal de circulação nacional. Nada que se compare, de acordo com Rosane, à alegria de abrir a Folha de manhã e ver o nome dela num cantinho da página dois.''Eu fico na maior alegria quando vejo uma carta minha publicada. Eu não saio por aí mostrando para o outros, minha intenção não é ficar famosa. A satisfação que eu tenho é saber que estou compartilhando coisas com outras pessoas''.

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