Quem nunca se gabou de morar na terceira maior cidade do Sul do Brasil, londrinense não é. Chega a ser cansativa a quantidade de vezes que esse discurso é repetido, ano após ano, por quem deseja provar que um município do interior pode, sim, ter desenvolvimento comparável ao de uma capital. O que poucos sabem é que, bem antes de Londrina ocupar essa posição, acontecimento semelhante já foi explorado por políticos e orgulhosos de plantão: a escolha de Londrina como uma das cinco cidades de maior progresso em todo o País. O fato ocorreu há cinco décadas, em 18 de agosto de 1955.
O reconhecimento público está registrado e guardado nos arquivos do Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam), no Rio de Janeiro (RJ). Em Londrina, a memória só existe na cabeça de alguns cidadãos e em notas de jornal publicadas na época. Atualmente, o Museu Histórico de Londrina busca o paradeiro do ''Diploma de Honra'' concedido ao prefeito Milton Ribeiro Menezes (1951-1955) pelo Ibam e pela extinta revista ''O Cruzeiro'', realizadores do concurso ''Municípios de Maior Progresso'' na época.
Segundo relatório do Ibam, o concurso tinha por objetivo ''conhecer a extensão do progresso dos municípios brasileiros e despertar no administrador público o desejo de realizar algo edificante em prol de sua comunidade''. Após a avaliação dos dados enviados por prefeitos de todo o País, seguida de visitas às cidades finalistas, Londrina foi vencedora juntamente com Adamantina (SP), Araras (SP), Blumenau (SC) e Mutuípe (BA). O prêmio não veio acompanhado de nenhum repasse financeiro, mas foi recebido com muito entusiasmo à época.
Muitos dos que acompanharam a história política em Londrina creditam o prêmio àquela que consideram uma das melhores administrações da cidade: a de Milton Ribeiro Menezes. Mineiro, com formação em Direito, Menezes ocupou por duas vezes o cargo de prefeito a primeira, de 1951 a 1955, e a segunda entre 1959 e 1963. Em ambos os mandatos, ficou marcado como administrador ético e econômico, que teria deixado contribuição fundamental para o planejamento espacial da cidade e a implantação de saneamento básico.
''Numa época em que a primeira preocupação de um prefeito era fazer uma fonte luminosa, ele (Menezes) realizou obras de infra-estrutura, coisas que não eram aparentes'', afirma Severiano Alves Pereira, professor aposentado de Direito da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e secretário-geral da prefeitura durante as gestões de Menezes e José Hosken de Novaes (1964-1969).
À parte dos méritos do prefeito, Londrina vivia nos anos 50 o momento mais intenso de sua economia, o ''Eldorado do Café'', como foi chamado. A idéia de progresso atraía investidores e trabalhadores de todo o País. Para se ter uma idéia, o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1950 apontava uma população de 72.412 habitantes em Londrina. Em 1960, esse número já havia saltado para 134.821 habitantes.
''Não paravam de chegar à cidade aqueles caminhões de pau-de-arara, trazendo os chamados 'nortistas'. Eles viajavam dias, em estradas péssimas, para buscar trabalho nas fazendas de café. Porque todo mundo falava do progresso no Norte do Paraná, especialmente em Londrina. E eles conseguiam emprego, pois a demanda por mão-de-obra também era muito grande'', lembra Gueomar Moreira, então chefe de gabinete do ex-prefeito Hugo Cabral (1947-1951) em seu último ano de mandato e durante todo a primeira gestão de Menezes.
A prosperidade que parecia marcar aquela época não foi um fenômeno restrito a Londrina, mas mundial, como assinala José Miguel Arias Neto, professor de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no livro ''O Eldorado: Representações da Política em Londrina - 1930/1975''. O professor afirma: ''Foi o período (de 1950 até meados de 1970) de maior expansão da cidade e da região. As imagens na documentação e na memória dos habitantes são impressionantes. Estas idéias de prosperidade e de crescimento ilimitado não constituíram, no entanto, particularidades locais. Este período foi denominado, em nível nacional e internacional, de 'Anos Dourados''.
Para o jornalista Délio César, que acompanha a trajetória de prefeitos em Londrina desde 1954, dois dos méritos de Milton Menezes foram justamente o de saber aplicar os recursos públicos com rigor, em anos em que o dinheiro corria com a febre da cafeicultura, e o de estruturar a cidade, freando o avanço das fazendas sobre os fundos de vales. ''Ele conseguiu implantar a duras penas a Lei 133, inspirada pelo prefeito Prestes Maia (São Paulo), que permitiu a preservação dos vales. Se não fosse aquilo, a cidade, hoje, seria terrível em termos de exposição a enchentes'', argumenta.

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