Profissional forjado pela selva
Manaus (AM) - Quando garoto, Bruno de Carvalho Mancinelli, 25 anos, gostava de cuidar dos familiares que estavam doentes, controlava o horário dos remédios e, mesmo sem entender, fazia questão de ler a bula dos medicamentos.
Ele cresceu em Mogi das Cruzes (SP) e a Medicina se tornou o único caminho profissional. Quando terminou o curso em Taubaté, decidiu se alistar voluntariamente nas três forças. Descobriu os navios-hospitais da Marinha, que atendem na Amazônia.
Resolveu adiar sua especialização. Durante um ano, o oficial temporário da Marinha navegou pelos principais rios amazônicos levando um pouco de alivio a dezenas de famílias desassistidas.
Descobriu que o trabalho é muito mais amplo do que imaginava. ''Tinha a ideia que era só uma assistência à saúde, mas hoje vejo que o nosso trabalho vai além de ter um enfoque à saúde. Fazemos também um trabalho de inclusão social.''
Conhecer a Amazônia fez o médico mudar sua visão sobre o próprio país. ''Quando pegamos o mapa e olhamos a região amazônica imaginamos que toda aquela área verde é uma coisa só. Hoje vejo que estava completamente equivocado, o Pará é extremamente diferente do Amazonas, que é diferente do Amapá, e por aí vai.''
A experiência forjou um profissional mais preparado para entender as peculiaridades do seu humano. ''A minha parte profissional não vai ganhar o tanto quanto a minha parte pessoal, minha maneira de enxergar o paciente, minha maneira de ver o problema'', afirma o médico.
As centenas de milhas navegadas, o calor insuportável, a profusão de insetos não foram suficientes para apagar da memória o atendimento que Mancinelli fez no polo de atendimento do Rio Juruá, o mais sinuoso do mundo, em uma das regiões mais pobres do Brasil.
Uma senhora de 42 anos, com 17 filhos, queixa-se que o ciclo menstrual estava atrasado. As condições da paciente e a idade levam o médico a suspeitar do diagnóstico: seria a perimenopausa?
Depois de um exame rápido, surpreende-se com uma gestação já no quarto mês. Numa região sem nenhum recurso, numa idade de risco, com 17 filhos - três com malária - e na pobreza, passava pela cabeça do médico o choque que a notícia iria trazer para aquela família isolada. No entanto, a reação ficou tatuada na memória de Mancinelli: ''Ah, tá! Mais um filho''. (S.R.)





