Nem tudo são rosas quando se aborda o atendimento em saúde em Londrina. Ainda assim, o município é hoje um dos principais pólos de excelência do País graças a competência de profissionais (e outros trabalhadores da área) que aqui atuam em diversas especialidades. Na última sexta-feira, a medicina local perdeu um de seus filhos mais pródigos, o médico João Dias Ayres, que aos 95 anos deve ter acompanhado com orgulho no final de julho dois exemplos que reforçaram a imagem positiva da comunidade médica e contribuíram para reafirmar esta vocação da cidade. Percorrendo consultórios e hospitais, a FOLHA descobriu outros personagens que ajudam a escrever esta história de sucesso.
Pelo que já fez em benefício de muitos pacientes no Hospital Evangélico (HE), o microcirurgião Edson Takaki não precisa provar mais nada. Talvez por isso continue colecionando vitórias. A última veio há alguns dias, quando reimplantou as duas mãos de Degilânio de Lima, 25 anos, um operário que amputou os membros em um acidente de trabalho. A maratona no centro cirúrgico durou 24 horas. Outro detentor de façanhas - foi ele que há 11 anos virou notícia no mundo ao, literalmente, ''colar'' o coração de um paciente durante uma cirurgia -, o cirurgião Francisco Gregori Júnior incluiu outra em seu currículo no final de julho: passou 51 horas na sala de cirurgia do HE até conter uma hemorragia do paciente Onivaldo Cassiano, de 49 anos.
Para o cardiologista, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), ex-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética e referência mundial no tema, José Eduardo de Siqueira, a perícia dos colegas ilustra o ''atrevimento'' que a cidade se permitiu imprimir na área médica que, segundo o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), congrega um exército de 1.524 médicos (1.057 homens e 467 mulheres). ''Londrina tem características próprias porque houve concentração muito grande de gente que pensa. Hoje, existem cerca de 300 doutores que atuam aqui. É uma cidade atrevida, inclusive na Medicina'', define.
Siqueira lembra que o município é referência também em Bioética, porque a disciplina está na grade de Medicina da UEL desde 1996 e há curso de especialização desde 2000. Aliás, estes 40 anos do curso de Medicina em Londrina é apontado por todos os profissionais como uma das molas que impulsionaram o desenvolvimento e a valorização dos médicos locais.
E, quanto mais desenvolvida, maior a necessidade de atualização contínua, aponta o cardiologista Ricardo José Rodrigues, participante assíduo de congressos em todo o mundo. Mas ele alerta que a quantidade de informação também trouxe desafios novos: o médico deve eleger prioridades para não se perder nas novidades; os pacientes, por sua vez, também têm acesso às informações e cobram mais. ''O médico não é mais dono do paciente. Hoje, a gente recomenda ações ao paciente, que também fica responsável pelo tratamento'', observa Rodrigues.
Para Siqueira, a competência do médico está na capacidade que ele tem para equilibrar ciência, tecnologia e valores éticos. ''O paciente é um ser biopsiquicossocial e tem quer ser atendido de forma integral. Ninguém traz um fígado ou um coração para ser examinado.''

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