Profissão de risco
''Curitibano é muito barbeiro. Motoqueiro é tão barbeiro quanto quem dirige carro'', sentencia o ator Otávio Linhares, de 29 anos, que não trabalha com entregas, mas anda de moto pelas ruas da cidade. A visão de que os dois lados cometem ''barbaridades'' é compartilhada com outros condutores de carros e de motocicletas, e até por motoboys, que lembram que a pressa é uma característica da profissão e não do condutor.
Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Condutores de Veículos Montonetas, Motocicletas e Similares de Curitiba e Região (Sintramotos), Tito Mori, o mesmo motorista que critica como os motoboys dirigem é também um usuário do serviço de entregas de moto, que é requisitado justamente por sua rapidez.
O consultor de trânsito Marcelo José Araújo concorda. Para ele, o serviço de motoboy vem atender uma dependência de todos por um serviço rápido, fácil e não oneroso. ''A rapidez é culpa do cidadão, que quer tudo rápido. As empresas chegam a fazer promoções, dizendo que se a entrega não for feita em 15 minutos, ou a pizza não chegar quente, o cliente não paga.''
Por outro lado, ele lembra que muitas vezes o motociclista não tem preparo para enfrentar a pressão da profissão. ''Muitas vezes motoboy é a primeira atividade dele, que teve fácil acesso à compra da moto, e vai trabalhar para pagar essa moto. Então torna-se uma atividade de um recém-habilitado.''
Fabiano Munir, de 29 anos, que trabalha como motoboy há 5, não vê assim. ''O desrespeito é mútuo. Tem uma parcela que abusa, mas quem tem moto e trabalha com responsabilidade vai se cuidar, porque se bater, além de danificar a carga ainda vai ficar sem o veículo. Estando certo ou errado, o prejuízo maior é sempre do motoqueiro'', diz ele, que teve que ficar 20 dias parado, depois de um acidente, enquanto a moto foi para conserto.
Ainda assim, Fabiano ressalta a situação do motociclista, que vive brigando contra o tempo. ''As pessoas não vêem o lado de quem está trabalhando. É um trabalho que precisa de urgência. Se o motoboy pegar três pontos de engarrafamento, por exemplo, não vai conseguir fazer as entregas'', avalia ele, que trabalha com carteira assinada para uma empresa de entregas.
Além da corrida do dia-a-dia, grande parte da categoria enfrenta dupla jornada. É o caso de Ademir Vestewig, de 37 anos, que tem registro junto a uma empresa de telemarketing, que faz vendas por telefone. Ali, ele trabalha das 8 às 17h30, e à noite faz entregas para uma pizzaria. Como autônomo, recebe diária de R$ 20 mais as taxas por entrega, com valor variável conforme a distância. ''Na pizzaria é mais cansativo, tem que correr mais, mas já me acostumei a dormir seis horas por noite.''
Anderson Guenze, de 24 anos, reconhece que essa rotina é cansativa, porém necessária. ''Tem que correr, ou não dá nem para o cigarro'', afirma ele, que recebe R$ 480 em um trabalho fixo de dia e também entrega pizza à noite, onde ganha diária de R$ 15 mais as taxas por entrega. Mesmo assim, ele gosta do que faz.
A correria quase sempre faz vítimas. Tanto que é difícil encontrar algum motoboy que não tenha sofrido algum acidente. Anderson conta que cruzou uma preferencial sem placas e foi parar no hospital. ''Só desmaiei, não foi nada.'' Ademir também ameniza a situação: ''Já bati uma vez mas não foi nada sério''. Apesar do perigo, ninguém quer largar a profissão. ''É muito estressante, mas eu não troco por outra coisa'', diz Anderson. (M.G.)





