Professores sofrem com a indisciplina dos alunos
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sábado, 22 de outubro de 2005
Alan Maschio<br> Reportagem Local 
''Escolas boas para trabalhar hoje são aquelas que ainda estão livres da violência''. A frase dita pelo professor Marcos Rogério Gomes, da rede municipal de ensino, sintetiza o sentimento de insegurança com o qual os profissionais da área trabalham em Londrina, uma cidade que ainda é considerada tranquila quando o assunto é violência nas escolas.
A preocupação é seguida pelo alerta do chefe do Núcleo Regional de Educação (NRE), Rony Alves, que vê nos casos de indisciplina registrados constantemente a flor da qual pode brotar um problema já vivido por São Paulo. Sem referências familiares e sem integração da comunidade com autoridades, os mesmos estudantes que hoje só perturbam as aulas em Londrina podem se transformar brevemente em potenciais ameaças, inclusive físicas, para os professores e para eles próprios.
Embora a Patrulha Escolar do Estado considere a situação tranquila em Londrina opinião referendada pelo Ministério Público não é difícil entender porque grande parte dos professores londrinenses se sentem inseguros. Notícias sobre agressões e homicídios ocorridos em escolas estaduais paulistas chegam com frequência aos ouvidos da sociedade paranaense, uma comunidade que vive sob a pecha da violência entre adolescentes.
Estatísticas da Polícia Civil de Londrina, por exemplo, apontam para uma participação direta ou indireta de adolescentes em até 80% dos casos de homicídio e latrocínio registrados na cidade. Tal faixa etária é, obviamente, a mais atendida pelas escolas da rede estadual de ensino.
As notícias do Estado vizinho são igualmente desanimadoras. Rafael Batista Osti, de 15 anos, foi a última vítima de homicídio dentro de uma escola paulista, ao ser atingido por um tiro de revólver calibre 38, levado para a aula por um colega de classe. A conclusão da polícia, diga-se, foi de que o tiro foi acidental, não configurando, portanto, uma agressão premeditada. Mas o que um aluno, também de 15 anos, fazia com um revólver, dentro da escola?
Dados divulgados pela Patrulha Escolar de Londrina apontam que mortes dentro da escola nunca ocorreram na cidade. A apreensão de armas com alunos, no entanto, vem aumentando com uma frequência preocupante. No Colégio Estadual Tiradentes, nada menos que dois adolescentes entre eles, uma menina de 15 anos foram detidos com armas, dentro das salas de aula, há cerca de três semanas, em dois dias consecutivos.
''É uma situação para a qual os professores não estão preparados e nem deveriam estar'', afirma o chefe do NRE. No caso da menina de 15 anos, ela garantiu que havia tirado a arma de uma criança na rua e que procuraria a direção da escola para saber como entregar o revólver à Polícia. ''Ainda assim, é compreensível quando um professor teme abordar um aluno indisciplinado. Nunca se sabe se ele pode ou não estar armado'', completa Alves.
A consequência disto é que, de acordo com o responsável pela Patrulha Escolar de Londrina, aspirante Hugo César Woll, a Polícia é acionada, em 90% dos casos, para resolver casos simples de indisciplina. ''Casos, inclusive, que poderiam ser resolvidos internamente, em âmbito administrativo'', afirma.
Reforçando a tese de que Londrina ainda não sofre com problemas graves de violência escolar, tanto o chefe do NRE quanto o responsável pela Patrulha afirmam que os casos registrados no Colégio Tiradentes são ocorrências isoladas, não constituindo ameaça real. O que preocupa Alves, no entanto, é o aumento dos casos de indisciplina grave, o que pode, em breve, se transformar em atos de violência. No próprio Colégio Tiradentes, tanto a diretora Ingria Guimarães quanto a pedagoga Vanderly de Carvalho confirmam que ameaças verbais a professores, além de furtos e roubos, são uma constante. ''Os alunos passaram a não nos respeitar sequer como pessoas. Você acha que eles se lembrariam de que somos professores?'', questiona Vanderly.
Na escola estadual João Sampaio (Zona Leste), a professora Idí Cachione Rossi presencia, com relativa frequência, tentativas de depredação do prédio, por parte de jovens da própria comunidade. ''Jogar pedras nas janelas da escola parece ser um passatempo para alguns deles'', conta. ''A escola é uma panela de pressão, que reúne muitas diferenças. Temos um bom relacionamento com a comunidade e a situação poderia ser muito pior'', afirma a diretora, Maria de Lurdes Silva.
Agressões, por sinal, já se configuraram em escolas da Zona Rural de Londrina. O caso mais recente é o do jovem Wesley Henrique, 16 anos, espancado por outros quatro adolescentes dentro da sala de aula. A ousadia, segundo funcionários ouvidos pela Folha, foi o que mais impressionou: aproveitando-se do fato de serem ex-alunos da Escola Municipal Armando Rosário Castelo, no Distrito de Paiquerê, os jovens entraram no prédio e invadiram a sala de aula de Wesley, onde as agressões começaram, inclusive com o uso de cadeiras. O jovem afirmou que pensou até em abandonar os estudos, temendo novas agressões. ''Pedi para que meu filho não fosse mais às aulas, mas reavaliei e achei melhor deixá-lo estudar'', conta a mãe, que já tirou o filho mais novo do colégio, pelo mesmo motivo.
Segundo o professor Marcos, a escola de Paiquerê recebe raras visitas da Patrulha Escolar. Ainda assim, o clima vivido pelos professores, segundo eles próprios, é de relativa tranquilidade. ''Muitos só trabalham aqui por ser uma escola pacífica'', conta.


