No jargão jornalístico, para uma reportagem ser publicada é preciso que ela tenha essencialmente um bom ''gancho'', um bom apelo, algo que aguçe a atenção do leitor. Normalmente, este ''estimulante'' é algo concreto, como por exemplo uma informação nova sobre o assunto abordado. No caso do professor doutor João Francisco Gonsalez, 78 anos, a singularidade, o gancho, é ele próprio e sua paixão pela vida, pelas palavras e pela profissão, a qual exerce há 58 anos.
Morando em uma pequena chácara no Jardim Itatiaia (Zona Sul), o professor e a ''esposa, companheira, amiga, namorada, confidente'' Maria Aparecida, 76 anos, vão levando a vida com sabedoria: ele se dedicando às pesquisas, livros e aulas e ela às voltas com os afazeres domésticos. O professor nasceu em Severínia, interior de São Paulo, mas desde 1987 o casal vive em Londrina. Os três filhos continuam morando no estado de São Paulo.
Em Londrina, o professor começou a dar aulas de Filologia e Língua Portuguesa no curso de Letras da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Depois de concluir sua tese de doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), Gonsalez se aposentou. Mas a aposentadoria, é bom que se diga, veio contra a sua vontade, já que ele admite que não consegue abandonar o ambiente escolar, nem os alunos.
Atualmente, o professor dá aulas de Latim Básico e Jurídico para turmas de Direito do Instituto Catuaí de Ensino Superior (Ices), em Cambé, e se prepara para coordenar um curso de oratória na mesma instituição. ''Eu não passo sem meus alunos. Nas férias fico até deprimido'', admite o professor. Num exercício incansável de auto-crítica, ele não pensa duas vezes para refazer a mesma aula até perceber que seus pupilos, e ele, atingiram o objetivo desejado.
A Filologia (estudo da língua em sua amplitude e dos escritos para documentá-la), aliás, é uma de suas grandes paixões. ''É uma ciência enciclopédica. É um conjunto de ciências muito complicado de se estabelecer uma definição exata'', comenta. Ele aponta que está finalizando um livro sobre o homem e o corpo humano que consumiu 10 anos de pesquisa. ''A vantagem é que o livro terá um dicionário em três línguas: português, latim e grego'', avisa. Incansável, o professor Gonsalez diz que está trabalhando em um outro livro de sânscrito ''o irmão mais velho do latim e do grego'' mas prefere manter o segredo para evitar possíveis plágios.
Se no trabalho, o amor pela profissão que exerce há 58 anos segue inabalável, na vida privada não é diferente. Corredor contumaz, já participou de São Silvestres e chegou a competir, inclusive, com uma das maiores lendas do atletismo, o tcheco Emil Zatopek. Gonsalez pretende participar da mesma corrida este ano, mas uma lesão no joelho pode atrapalhar seus planos.
Com um currículo destes, o professor chamou atenção até de estrelas da televisão. Ele já esteve sentado no sofá do apresentador Jô Soares por duas vezes para ser entrevistado e deverá lançar o livro sobre o corpo humano no mesmo programa. Em sua primeira aparição na TV, ele contou os motivos que o levaram a empalhar seu cachorro de estimação, Pluto, e exibiu o animal empalhado no programa.
O bassê, a propósito, é um capítulo especial na vida de Gonsalez. O professor conversava com o cachorro em latim e, nas madrugadas em claro que passava debruçado sobre os livros para concluir suas teses, tinha sempre a companhia do melhor amigo. ''Ele me acompanhou por 17 anos. Ficava do meu lado acordado até quando eu ia dormir'', relembra. Tanta dedicação não podia ser esquecida. Hoje, o cãozinho continua tendo um lugarzinho na casa.
A lâmpada azul que Pluto tanto gostava quando ia dormir continua sendo ligada todas as noites para embalar seus sonhos. ''Ele ainda está por aqui'', garante o professor. E é assim, entre livros, amizades e lembranças que o professor encontra motivação para continuar trabalhando e sendo um apaixonado pela vida.

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