Professor artista
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terça-feira, 03 de março de 2009
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
Réplica de uma cabeça grega sobre a mesa de sala de aula, na Universidade Federal do Paraná. Fernando Bini, 62, viveu nesse cenário um dos momentos mais emocionantes como professor. Foi a alternativa que encontrou para aproximar a arte clássica de uma aluna cega.
Bini abandonou o pincel em 1975, ano em que assumiu o magistério, parte do seu esforço cotidiano para "não deixar que nossa história artística seja esquecida". Nas paredes de sua sala de estar, há diversas obras. Desde uma prova de gravura de Tarsila do Amaral, que ganhou da própria, a várias telas de paranaenses, muitos sobre os quais escreveu. "Praticamente todos", define o pintor e também crítico Fernando Velloso, 78, personagem de um livro escrito por Bini.
Ele tem a quem puxar: foi aluno e acompanhou por 30 anos o trabalho de Adalice Araujo, seu grande modelo. Adalice é a autora do Dicionário das Artes Plásticas no Paraná, o qual prefaciou. Sobre os escritos de Bini, Velloso comenta: "Talvez tenha sido quem melhor percebeu de sua crítica as intenções no meu trabalho."
Na sala de estar, Bini ainda guarda um objeto que trocou por um de seus quadros. "Um vaso etrusco que depois restaurei em casa e não deu certo." Além de estudar pintura na Belas Artes, Bini formou-se em Filosofia e especializou-se em restauração. Na sala, no lado oposto ao vaso, está uma escultura que ganhou do atual diretor do Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Alfi Vivern, 60: o segundo tomo das obras completas de Charles Baudelaire em francês preso em uma cúpula de vidro. A pequenina mesa colocada sobre o livro dá a graça e faz conexão com a inscrição "The table is on the book" feita no lado de fora. "Ele fez para me torturar", resume Bini, fã do escritor.
A França foi o seu destino com a chegada do Fernando Collor ao poder. A decepção com o escolhido nas urnas foi grande, mas, em sua opinião, anunciada. Antes de viajar, o professor fez uma conferência sobre como a mídia elegeu o presidente. Nunca vai se esquecer da sequência de capas da revista Veja que ajudaram a criar a figura do até então desconhecido candidato.
No doutorado em Estética e Tecnologia das Artes, na Universidade de Paris, Bini estudou a arte moderna no Sul do País. "O olho está muito lá fora, sem esquecer que está aqui dentro." Com o falecimento do pai, teve de retornar ao Brasil sem concluir o trabalho. Mas, até hoje, manda todos os seus escritos, em português, para o Centro Pompidou. "Não temos representação bibliográfica", define. Eventualmente retorna à França, como no ano passado, quando foi apresentar um colóquio sobre piano brasileiro na Sorbonne. Música, outra de suas paixões, tem data marcada em sua agenda pelo menos uma vez a cada 15 dias, quando se reúne com a Confraria dos Melômanos de Curitiba, grupo que escuta e debate música erudita desde 1983.
Artista
"Bini esperou três anos para fazer sua primeira individual, finalmente inaugurada quarta-feira, no Museu de Arte Contemporânea. Desde 1967 vinha participando de salões, foi incluído em nove coletivas e já conta em seu curriculum com cinco premiações...". O texto de 1973 do jornalista Aramis Millarch segue explicando o trabalho de Bini como artista e tecendo elogios à sua obra. No verbete que leva o seu nome no dicionário de Adalice Araujo, é lembrada a sua importância como pioneiro da linguagem contemporânea no Estado. "São amigos, são amigos", justifica.
Questiono se Bini seria um bom artista. "Se ele desistiu é porque não seria", responde. "Não sei se teria tocado tanta gente como artista como faço no magistério." A matéria de professor está por toda a casa. Uma das prateleiras de sua belíssima biblioteca é dedicada aos DVDs que o próprio organizou, uma coleção especial, com diversos volumes não disponíveis em locadoras convencionais. Para os títulos não lançados no Brasil, Bini fez legendas e as inseriu com seu computador, caso de uma série de curtas de Georges Méliès.
Como costume, leva os seus alunos a conhecer ateliês de artistas, espaços de difícil acesso no Brasil - Bini recorda-se que, em Paris, tem uma data do mês em que os ateliês são abertos ao público. "Eram aulas vivas. Os alunos sentavam-se no chão e era estabelecido uma espécie de debate", recorda o pintor Fernando Velloso, que recebeu algumas turmas de Bini em seu espaço de trabalho em Curitiba. Beatriz Bini, 22, aluna do sexto período de Design Gráfico na Pontifícia Universidade Católica (PUC), tem aulas com o pai desde o terceiro. "Ele é um bom professor. É rígido e faz a gente pensar." Uma característica que, ela explica, não é a de muitos dos professores.
Seu pai foi um dos fundadores do curso da PUC e também o do então Cefet (hoje Universidade Tecnológica Federal do Paraná), criados sob a alcunha de Desenho Industrial. "Era um trabalho que era feito ou pelos arquitetos ou por nós da escola de Belas Artes." A criação do curso na Católica, em 1975, marca o seu início de trabalho como professor. Cinco anos antes, descobriu o magistério, como ele mesmo diz, por acaso, quando substituiu o professor de História da Arte Sacra Cyro Correia de Oliveira Lyra. "Foram aulas aos seminaristas sobre como a Igreja interpretava as regras da arte", lembra.
Futuro
"Com a bagagem que tem, Bini está em condições de levantar questões que a gente mesmo não se faz", comenta o artista Domício Pedroso, 78, que convidou o professor a escrever o texto de abertura do livro sobre sua obra. "Já fizemos alguns encontros. Ele faz diversas perguntas sobre o meu trabalho. Procura examinar o que faço sob diversos ângulos."
Nascido em Antas, Santa Catarina, Bini veio para Curitiba aos três anos. É um entusiasta da produção local. "É um esforço muito grande para não deixar que a nossa história artística seja esquecida", define. A cada dúvida, vai até a biblioteca para checar, por exemplo, o nome de um autor.
Não tem preguiça com a precisão. Tampouco tem qualquer vontade de se aposentar. Sugiro a Bini que ele nunca vai parar de dar aulas. Ele sorri. "Sempre vou ter alguém a quem ensinar. Mesmo que sejam aqueles passarinhos ali a tomar banho melhor. Apesar de que, pensando melhor, eles tomam banho tão bem."


