Produtos licenciados: ceder ou não aos pedidos das crianças?
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sábado, 28 de janeiro de 2017
Juliana Leite<br>Especial para a Folha 

Todo ano é assim. Em janeiro, os pais de quem tem filhos em idade escolar começam a se desesperar com a lista de compra do material. Como se não bastasse a quantidade de itens pedidos, ainda é preciso lidar com a investida massiva da indústria, que apela aos personagens e desenhos do momento para produzir mochilas, estojos, capas de cadernos e vários produtos para atrair os consumidores mirins. O problema é que além de pesar no orçamento familiar, toda a compra de peças da moda levanta o debate sobre o consumo consciente.
De acordo com a psicopedagoga, Valéria Duarte, conversar com as crianças, ainda que pequenas, sobre a compra de produtos e o quanto isso reflete nos gastos dos pais parece uma tarefa difícil, mas é primordial para a família. "Falar das demais despesas da casa com a criança também a faz entender que o dinheiro dos pais tem de ser dividido para outras áreas da vida familiar. Então, alguns desejos podem não caber no orçamento. É um trabalho que deve ser repetido e que leva tempo a ser construído, mas ajuda a formar um cidadão mais consciente frente ao mercado e seus apelos" destaca.
Além de ponderar o que tem condições de ser utilizado novamente, é preciso avaliar os itens que poderão ser repassados para outras crianças. "Assim, os pais estarão proporcionando a seus filhos sentir o que é ser solidário", pontua. Na opinião de Valéria, uma das soluções para não cair na armadilha de produtos licenciados e economizar é aproveitar para customizar alguns itens como cadernos e fichários. "É um trabalho que envolve o tempo de qualidade entre pais e filhos. Utilizar materiais reciclados para dar aquela cara bacana no fichário do ano passado pode fazer adolescentes e crianças descobrirem habilidades, promover interação e valorizar uma peça que só precisava de um layout renovado, pois ainda servia à sua função perfeitamente. É uma boa hora para trocar os vídeos de marketing que incentivam o consumismo pelos vídeos de tutoriais de customização, que são fartos na Internet", sugere.
Mãe de três crianças em fases diferentes, Tamiris Somera conta que os mais velhos irão para a escola com as mesmas mochilas e lancheiras do ano anterior. O acordo já foi feito ainda no início de 2016, quando os artigos foram comprados. Rafael, 7 anos, e Heloisa, 3, aceitaram a decisão dos pais. O caçula, Felipe, tem apenas 11 meses, e deve continuar aos cuidados da mãe até os 3 anos.
"Falei pro Rafa que ele teria que cuidar bem da mochila e da lancheira porque ele iria usar esse ano também. Às vezes não tinha tanto cuidado ao andar na rua, batendo as rodinhas na guia da calçada. Mas o lembrava que se estragasse teria que ir com ela assim mesmo para escola", conta.
Para pais que gostam de consumir, criar regras não é tão fácil, mas segundo Tamiris é importante ser claro com os filhos. "Sempre fomos realistas com as crianças sobre a nossa realidade financeira, colocamos limites em comprar", diz ela destacando que a lição também lhe serve, pois admite ter perfil muito consumista.
Já Priscila Carrasco, mãe de Isabel, 8 anos, e Estela, 3 , acredita que é possível ser mais flexível nas escolhas. "Com a minha primeira filha tive medo que os personagens virassem os ícones e modelos que ela fosse seguir a vida toda, como Barbie ou Monster High. A minha preocupação é que ela levasse a sério esses padrões de beleza, de comportamento", lembra. Assim, ressalta que sempre evitou comprar produtos escolares, bem como roupas e acessórios ligados a desenhos e personagens.
Com o passar do tempo, Priscila percebeu que podia ser mais leve. "Percebi que não era algo que seria definitivo na vida delas, foi um processo de amadurecimento meu também", disse. A filha mais nova, que vai iniciar a vida escolar esse ano, ganhou uma mochila estampada com a Dora Aventureira. A compra foi feita sem a criança, mas por uma decisão após a filha verbalizar o pedido. "Acredito que tem de ser moderado pelos pais, pois faz parte do dia a dia das crianças", destacou.


