Produtos da estação são porto seguro
De um jeito ou de outro, o feirante sobrevive nadando em águas revoltas, profundas, cheias de perigos. O tempo passou e a vida desse operário da alimentação teve de acompanhar as ondas de modernidade, balançando de um lado para outro para se manter respirando em um mercado cada vez mais competitivo.
Depois de trabalhar por mais de 20 anos como produtora de verduras e legumes, Luzia Araújo dos Santos, sucumbiu ante à força avassaladora do lucro baixo. A combinação de perdas por causa do clima com baixo preço fez apodrecer as finanças e ruir os sonhos de continuar na atividade que vinha de família. Acostumada ao trabalho, ela não desanimou e mesmo que a corrente a empurrasse para outros caminhos decidiu trocar a produção pela comercialização.
Há quase dois anos, ela atende agora do lado de dentro da banca em várias feiras livres da cidade. Mesmo assim, o mar não está para peixe. Também está muito difícil porque os preços subiram bastante. Tomate, abobrinha, quiabo... Está tudo muito caro. Quarta-feira (7 de maio) fui comprar no Ceasa e voltei quase sem nada, dispara. A caixa com 25 kg de tomate foi oferecida a R$ 30. Comprou, mas se viu obrigada a vender o produto a R$ 1,80. Praticamente não dá para ganhar nada e o freguês ainda recla-ma, calcula.
Sem condições de remar contra a maré, Luzia vê nos produtos da estação um porto seguro para garantir algum lucro no final do expediente. O que está mais barato agora é o repolho. A dúzia está R$ 6 e dá para vender a cabeça por R$ 1, cita.
Mas se os produtos da estação ajudam os feirantes a se manterem na superfície, ainda há o perigo dos tubarões que povoam as águas do mercado. Cada vez mais, redes de supermercados avançam contra o território das feiras livres com preços cada vez mais baixos e, usando táticas predadoras, engolem os concorrentes mais frágeis.
O feirante Odério da Silva, por exemplo, vende frutas há 12 anos mas ainda com medo. Está muito difícil concorrer com os mercados porque eles têm estabilidade. Na semana passada, um empresário de Maringá comprou 170 caixas de laranja por R$ 0,99 o kg para vender no mercado dele a R$ 0,89, critica.
Sem fôlego para acompanhar, o feirante avalia que está na hora dos companheiros de profissão se organizarem se não quiserem desaparecer. Acho que a gente devia criar uma associação ou uma cooperativa para um ajudar o outro, analisa.
Alessandro Magri é outro que reclama do apetite cruel dos supermercadistas. Toda semana, há 11 anos, ele percorre quatro feiras vendendo hortaliças que ele mesmo produz. A gente consegue se manter por causa da tradi-ção, comenta. Até aprendeu um pouco de japonês para atender melhor a freguesia oriental, freqüentadora assídua das feiras livres.
O feirante exemplifica que os produtos que sobram do dia são dispensados e ele arca com o prejuízo. No mercado, o produtor que entrega tem que repor as sobras sem ganhar nada por isso, reclama em nome dos companheiros. (L.A.)





