A legislação brasileira prevê três tipos diferentes de regime de reclusão para aqueles que cometem crimes. O mais conhecido é o regime fechado, em que o detento fica preso em uma unidade prisional da qual não pode sair, salvo com indultos presidenciais de poucos dias, geralmente concedidos no Natal. Existe também o regime aberto ou a chamada liberdade condicional, na qual os condenados ficam soltos, mas precisam cumprir uma série de condições, como se apresentar às autoridades com frequência e não deixar o estado até o final da pena.
No meio desses dois regimes existe um outro em que as grades são imaginárias e o carcereiro é a própria consciência. No município de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, está localizada a Colônia Penal Agrícola, onde os condenados pela justiça podem cumprir a pena em regime semiaberto, ou seja, estão trancados, mas livres dentro dos 330 alqueires que compõe uma grande fazenda onde existem alojamentos, canchas de esporte, estruturas administrativas, canteiros de trabalho e muita área verde.
Hoje a Colônia Penal abriga 1.350 internos, até 2006 esse número era bem menor, por volta de 800. O crescimento, segundo o diretor da instituição, Lauro Luiz de César Valeixo, se deu em razão da aprovação de uma lei que permite que até mesmo presos condenados por crimes hediondos tenham a oportunidade de pedir a progressão da pena para o regime semiaberto. Para dar conta desse contingente estão sendo construídos quatro alojamentos, um centro de triagem, um posto de saúde, uma nova escola e os refeitórios estão sendo ampliados. No centro de triagem é feita a individualização da pena, separando os internos de acordo com a gravidade do delito e da escolaridade de cada um.
Ao caminhar pelo terreno da Colônia Penal por um momento esquecemos que estamos na companhia de homicidas, assaltantes e outros criminosos condenados. Em meio às vacas e ovelhas, pequenos grupos de homens caminham despreocupados pelos campos, alguns jogam xadrez ou futebol e outros trabalham em áreas delimitadas. A única forma de diferenciar os internos dos agentes da secretaria da Justiça é que estes últimos trajam coletes pretos.
Essa é uma prisão diferente, a prova cabal disso é que quase não há problemas de disciplina entre os internos e os seguranças andem desarmados pelo complexo. Segundo Valeixo, a última rebelião ocorreu há mais de nove anos e mesmo nesse episódio não houve reféns. "A segurança é mantida através do diálogo e da disciplina", afirma. Para que isso se sustente é preciso estabelecer horários para tudo. Na avaliação do diretor da instituição, a rotina impede que o ócio preencha a cabeça dos internos com planos de fuga e de outros delitos, que podem acabar por afastá-los ainda mais da ressocialização pretendida.
A fórmula encontrada para isso é a junção do trabalho - desempenhado em diversos canteiros dentro da própria unidade e em empresas de fora - e da qualificação profissional, que é feita através de cursos oferecidos por convênios. Sobre essas duas atividades pairam de forma atuante projetos que têm como objetivo promover a criatividade e a cultura entre os detentos.
Todo ano a administração da Colônia promove um Festival da Canção, onde os internos podem inscrever canções inéditas de sua autoria que são apresentadas perante um júri formado por profissionais da área. Outra iniciativa é o grupo de teatro que permite aos presos formas diferentes de expressão. Um dos participantes, J.B.S., de 42 anos, diz que se sente melhor como pessoa desde que descobriu o teatro. Condenado por assalto, ele conta que já realizou apresentações até mesmo na França e fala com entusiasmo da sua futura participação como figurante em um filme longa-metragem que está sendo rodado no Paraná. "Já estou incorporando o personagem", brinca.

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