Primeiro de Agosto, cidade dos sem-terra
A primeira sensação que se tem quando a cancela do acampamento 'Primeiro de Agosto' fica para trás é a de que chegamos à ''cidade dos sem-terra''. A localidade reproduz tudo o que se vê nos pequenos aglomerados rurais: ruas 100% de terra; uma praça central, onde estacionamos; uma igreja do Evangelho Quadrangular; um bar; um pequeno silo; e a casa de força. Bandeiras do MST estão por todos os lados e o vermelho predomina na indumentária local.
Estamos na fazenda Cajati, em Cascavel, propriedade de 3.300 hectares, considerada produtiva pelo Incra, e que foi invadida por 1.000 famílias ligadas ao MST em 2000 e 2004. A Justiça já concedeu ordem de reintegração de posse, ainda não cumprida pela polícia.
Assim que estacionamos o veículo na área central, somos recepcionados por um sujeito barbudo, muito sério, que quer saber por que estamos ali. Informa-nos que o líder não está no momento e que ninguém pode nos atender. ''Não tenho informação nenhuma, vocês devem ir embora'', diz. Sem espaço para discussão, nos conduz resolutamente de volta ao carro.
Escapando da marcação do líder do acampamento, no entanto, um rapaz que se identificou apenas por Fernandes disse que integra o MST há quatro anos e que já foi despejado de uma outra ocupação no norte do estado.''Fiquei um ano e pouco acampado lá na região de Ivaiporã'', conta. Aos 34 anos, Fernandes abriga em sua barraca a mulher e um filho de oito anos. Enquanto conversamos com o acampado, sem chamar a atenção do líder, observamos a quantidade de lixo a céu aberto, próximo às barracas, demostrando a situação precária a que as famílias estão submetidas num acampamento.
Deixamos o local e seguimos para o segundo acampamento do MST na mesma fazenda (Dorcelina Folador), localizado a mais de 10 km de distância. Desta vez, somos barrados logo na porteira por dois acampados que exercem o cargo de vigias. Ambos informam que o líder não está, e que ninguém pode conceder entrevista. Porém, pequenos agricultores que não sabem fugir das origens, seguem 'proseando' com os repórteres sobre o dia-a-dia do acampamento. Aos poucos, o mais velho informa que seu único objetivo é a conquista de um pedaço de terra. ''Estou aqui há sete anos com a esposa e uma neta. Trabalhei na roça a vida toda, é a única coisa que sei fazer. Só que onde morava - Rio Bonito -tinha de arrendar a terra. Chegou uma hora em que não consegui vencer e vim para cá''.
Sobre os temas políticos, caros ao movimentos, o agricultor atribue pouquíssima importância em comparação com a luta por uma pequena propriedade. ''Reforma agrária para mim é ganhar o pedaço de terra que a gente tanto precisa. Falar em revolução, capitalismo, não resolve nada para a gente. Estou aqui para melhorar a sobrevivência mesmo''.
A abertura dos agricultores que conversam com a Folha é fechada em menos de 15 minutos por um integrante do acampamento que vem até a porteira verificar o que está acontecendo e encerrar a conversa.
(F.C. e F.L.)





