Imagine receber uma carta, com dois anos de antecedência, orientando-o a evitar viagens em determinada data, para não correr risco de se envolver em um acidente fatal? A maioria das pessoas pensaria, com certeza, tratar-se de uma brincadeira de mau gosto.
Pior do que receber a missiva, no entanto, talvez seja ter de enviá-la. E é o que faz, há mais de 30 anos, o maringaense Jucelino Nóbrega da Luz, de 46 anos. Premonitor - como se auto-denomina -, ele recebe orientações detalhadas sobre o futuro de pessoas e de países por meio de sonhos. Aos céticos, já adianta: ''Não tenho religião. Já conheci todas, mas hoje me considero ecumênico. Faço, pensando no bem das pessoas. Se elas acreditam ou não no que prevejo, é decisão de cada uma''.
Tudo começou, aos nove anos, em 1969. Jucelino previu um acidente de carro envolvendo uma Brasília. Nada inusitado, não fosse o fato desse modelo de automóvel ainda não circular pelas ruas brasileiras e muito menos nas de Floriano, distrito de Maringá, onde nasceu. Mesmo sendo algo praticamente impossível de se concretizar, a fatalidade aconteceu, como previsto, quatro anos depois.
De lá para os dias atuais, ele acumula milhares de histórias. Algumas famosas, como as das mortes do piloto Ayrton Senna, do Papa João Paulo II, da princesa Diana e até de Jean Charles de Menezes. Detalhe: a carta sobre o jovem brasileiro, morto em Londres há pouco mais de um ano, foi enviada quando Charles tinha apenas dez anos de idade. Naquela época, para o pré-adolescente, certamente Londres só existia nos mapas escolares.
Em 1997, Jucelino da Luz resolveu levar suas histórias para a mídia. A preocupação eram os sonhos premonitórios que tinha em relação ao meio ambiente. ''Eu via coisas ruins e que precisavam que o homem se modificasse para serem evitadas, por isso a exposição midiática'', justifica. Pensando em garantir que as pessoas levassem a sério suas previsões, ele começou a registrar as cartas que enviava em cartório. De algumas, inclusive, são feitas cópias para mais de uma pessoa.
Histórias que exemplificam o dom do premonitor não faltam. Algumas envolvem famosos - apenas 5% do total. Outras, advertem sobre situações coletivas - cerca de 10%. A maioria tem a ver com pessoas comuns, desconhecidas por ele - totalizando 85% dos casos. ''Quando sonho, além de ver o que vai acontecer, ouço a voz de um mentor que me descreve tudo, até o nome e o endereço para onde devo enviar a carta. A única coisa que faço é depois me certificar de que a pessoa recebeu o recado'', explica.
Professor Jucelino, como é chamado - ele leciona inglês e alemão, faz traduções e também é bacharel em Direito - garante que tanto faz se acerta ou não. ''O ideal mesmo é que eu erre. Se existe a possibilidade da pessoa evitar um acidente ou cuidar com atenção da saúde é com esta finalidade que eu envio a carta, e aí a previsão não se confirma'', argumenta. Ele é casado e tem quatro filhos, sendo que um deles, Lucas, de três anos deverá ser o seu seguidor nos dons premonitórios, como atesta.
Mas para quem pensa que a vida de alguém com este dom é toda boa, ou repleta de catástrofes, ele deixa claro que não é bem assim. Já sofreu bastante por conta dos sonhos, mas também tem casos satisfatórios. Um dos ruins aconteceu aos 16 anos, quando previu a morte de um amigo. Chegou a conversar com a família e com o próprio amigo, mas ninguém deu ouvidos. Infelizmente, no dia previsto, o companheiro teve o ataque cardíaco - como havia sido sonhado - e morreu nos braços de Jucelino.
Em outra história, conta que precisou mudar de cidade, prestar concurso público, conseguir lecionar em uma escola da periferia do novo município, para evitar que uma adolescente tomasse veneno de rato. Se é esforço demais? ''Penso que se trata de uma vida humana. Sou ser humano, tenho família, sou pai e creio em Deus. Não sou eu quem vou evitar de ajudar alguém'', esclarece com firmeza.
De tudo o que já viveu na vida, destaca o encontro com o médium Chico Xavier, ocorrido em 1979. ''Ele ajudou a me descobrir. Foi um ponto de luz para mim. Já tinho sido tratado por médicos, psicólogos, terapeutas e tudo mais, mas nada fazia eu me encontrar. Até remédio tarja preta haviam me receitado, só que eu fingia que tomava e jogava tudo fora'', diverte-se ao lembrar.
Hoje - apaixonado pela espiritualidade, como faz questão de ressaltar -, Jucelino realmente parece ter se encontrado. Faz palestras, conta com uma equipe de advogados e fala recorrentemente da família. ''Não sou líder de nada, nem de ninguém. Faço o possível para não usar essa habilidade psíquica para ganho pessoal. O que quero é o bem das pessoas, independentemente de quem seja'', reafirma.

Serviço:
Hoje, com a modernidade, Jucelino da Luz mantém uma página na Internet onde orienta as pessoas que queiram pedir - gratuitamente - orientações. O endereço é www.jucelinodaluz.com.br. Nos dias 5 e 6 de outubro, ele dará palestras em Maringá, e nos dias 7 e 8, em Londrina. Os locais ainda não estão definidos.

Com exclusividade para a Folha, reprodução de carta enviada em 2005 por Jucelino ao presidente do Supremo Tribunal Eleitoral, Marco Aurélio de Mello, na qual denuncia a compra de um dossiê com fins eleitorais, em 2006, e adverte o ministro para a possibilidade de um atentado

* Fac-símile da carta, com nomes de possíveis implicados retirados, a pedido de Jucelino

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