Presidente avalia como bom o trabalho da Câmara
Você sabia que em Curitiba é proibido usar cerol em fio de pipas? Trata-se de infração sujeita a multa de R$ 500 (o valor dobra em caso de reincidência) ao portador da pipa com cerol, ou seu responsável. E que veículos de tração animal as populares carroças devem ter concessão da prefeitura para tráfego, serem emplacados, possuir documentação de registro e serem munidos de acessórios como freio, buzina e olho de gato? Pois desrespeitar essas regras, que devem ser fiscalizadas pelo município, também é uma infração passível de multa, que variam de R$ 25 a R$ 100.
Esses são dois casos de leis propostas e aprovadas por vereadores de Curitiba ao longo da última legislatura da Câmara Municipal de Curitiba e que estão em vigor há mais de três anos. Mas quantos casos de multas a soltadores de pipa com cerol você já testemunhou? Ou um agente de trânsito multando um carroceiro que dirige uma carroça sem placa?
O vereador quando legisla está desempenhando seu papel. A execução das leis é uma atividade administrativa, e demanda a criação de uma estrutura de fiscalização, explica do professor de direito constitucional da UniBrasil Paulo Schier. O município tem questões extremamente importantes de serem fiscalizadas, e a administração pública não tem estrutura e verba para fiscalizar todo tipo de lei que estabelece sanções. Então o prefeito elege prioridades para exercer o poder de polícia. Outros problemas trazem impacto social muito maior, completa.
Os vereadores não têm compreensão de suas limitações, diz o cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná Fabricio Tomio, especialista em produção legislativa. Leis de maior relevância dificilmente são aprovadas, porque o papel do vereador não é propor leis, mas emendar e controlar o Executivo, completa. Dá menos glória, mas é o papel. É o que a Constituição Federal determina.
Segundo Tomio, a organização institucional brasileira prevê que o próprio Poder Executivo desempenhe o papel de legislador, relegando ao Legislativo a condição de complementar as políticas públicas. Por isso os vereadores se atêm à legislação fácil de aprovar e de pouca eficácia, como dar nomes de ruas, criar datas comemorativas e declarações de utilidade pública, afirma. Não é maldade. Mas a maior parte do que é publicamente relevante não é proposto e, se é, dificilmente será aprovada. O modelo clássico de separação dos poderes não é o caso brasileiro nem o da maior parte do mundo, atesta.
Na opinião do professor Schier, também há uma certa desinformação dos vereadores em relação ao papel que desempenham. A ampla maioria dos projetos de lei (de relevância pública) são de origem do Executivo. Como o prefeito conta com ampla legitimidade pública, isso facilita o trabalho dos vereadores, afirma. Nas contas de Schier, só em 2008 foram 11 pedidos de crédito adicional ao orçamento enviados pelo prefeito à Câmara, todos aprovados, segundo o constitucionalista.
Schier diz acreditar que as lideranças políticas brasileiras deveriam ser melhor formadas. O município desempenha um papel importante na implantação de políticas sociais. E vemos poucos projetos que tenham vinculação com esse temas, afirma. Quem propõe projetos de lei não é a Câmara. Ela é a instância de veto e controle do Executivo, conclui Tomio. (R.S.)





