`Preservar é dever sagrado´
"A criação toda é obra de Deus. O homem faz parte dela, com a missão de cultivá-la e guardá-la. Não é senhor da criação e não deve destruí-la." As palavras são do frei Ildo Perondi, franciscano capuchinho que é professor de Sagrada Escritura da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e mestre em bíblia pela Universidade Urbaniana de Roma.
A Folha convidou o frei e outros religiosos a falar sobre a relação de Deus com a natureza e sobre como o homem deve se relacionar com o meio ambiente do ponto de vista teológico. Todos deram respostas que convidam à reflexão e mostram que, pelo menos nesse assunto, há unanimidade entre as religiões: preservar é um dever sagrado.
O frei Perondi, por exemplo, afirma que o ser humano, sob a regência do capitalismo, vive um momento complicado em relação à natureza. "Ela não dá conta de se renovar, dado o ritmo voraz com que o homem a destrói. A prova disso é que já perdemos muitas espécies animais e vegetais. O homem precisa resgatar a sua espiritualidade e entender que tem a missão de cuidar do lixo que produz, dos rios, das árvores", ressalta.
"São Francisco de Assis é um modelo que devemos seguir", propõe frei Perondi. "Há oito séculos ele já chamava as outras criaturas de irmãos, mostrando que devemos ter uma relação de irmandade com a criação e não de posse e senhorio."
Grito de sofrimento
O teólogo Silas Dias Barbosa, professor de Teologia da UniFil, destaca que uma religiosidade sem olhar para a natureza é vazia. "Muitas vezes, as pessoas se preparam mais para andar no céu do que para andar na terra. A verdadeira espiritualidade leva a sério a criação e sua sustentabilidade; sem isso, ela é obtusa", afirma.
Sobre o momento atual da relação do homem com a natureza, o teólogo tem palavras firmes. "O ser humano foi criado para amar a Deus, relacionar-se com o próximo e cuidar da criação. Porém, se alienou e passou a destruí-la. O grito que hoje dá a natureza é o grito de sofrimento do próprio criador", alerta o professor.





