Itaércio Rocha, 48, leva nos pés tamancos do Fandango da Ilha de Valadares, Litoral do Estado. Na bata, um bordado ucraíno. Sobre a cabeça, carrega uma parte do presépio ambulante: uma armação de papel machê que pesa menos de dois quilos e lembra os chapéus utilizadas no Guerreiro, do folclore de Alagoas. Melina Mulazani, 36, leva Maria, José e Jesus. Daniella Gramani, 34, que faz aniversário amanhã, toca a rabeca, instrumento típico do Fandango. Thayana Barbosa, 27, um acordeon. "Reunimos várias manifestações populares para criar a nossa própria", diz a última, a mais jovem dos quatro integrantes do grupo Mundaréu, de Curitiba.
Desde 2001, eles levam ao público o "Cortejo Natalino", em que cantam e dançam a chegada do Menino Jesus. Neste dezembro foram 17 apresentações, 12 delas com apoio do edital de Teatro Itinerante na modalidade Autos de Natal, da Fundação Cultural de Curitiba, de onde receberam R$ 13.500,00. Na última quarta-feira foi a vez da Rua da Cidadania do Bairro Pinheirinho. Às 9h42, Thayana anuncia a chegada do cortejo do Mundaréu. A música começa. De passagem, o metalúrgico Jurandir de Paula, 55, encosta a bicicleta e acompanha. Itaércio interage: "Se o dia está cinza, pode ficar um pouco colorido". Jurandir comenta com a reportagem da FOLHA: "Até agora estou na dúvida. Mas deve ser um conjunto do Ceará. É Folia dos Reis que diz, né?".
A música é alta. O espaço de circulação, antes vazio, agora conta com cerca de 40 curiosos que acompanham de pé, entre freqüentadores, comerciantes e funcionários do local. Margarida Amélia de Assis, dona do salão Guida Hair, segue o seu trabalho. "Não tá incomodando não. O difícil foi o de música Gospel", diz, enquanto corta o cabelo de uma cliente. A funcionária pública Eliana Santos, 51, coloca dúvida semelhante à do metalúrgico Jurandir: "Só tinha visto pela televisão. É do Nordeste, não é?". Melina, a que leva Jesus sobre a cabeça, canta e se aproxima de Eliane. "Assim vai fazer eu chorar, menina". "Pode chorar", responde a música. Eliane não contém as lágrimas. Pouco depois, pergunta. "Eles são de Curitiba mesmo?".
Daniella, reis magos no chapéu e a única integrante remanescente da época da fundação do grupo, em 1997, explica que o Mundaréu reúne manifestações populares do Nordeste ao Sul do País: do Bumba Boi maranhense às congadas mineira ou lapeana, da Lapa, interior do Estado - representadas no saiote branco utilizado por Itaércio. "As pessoas têm dificuldade em reconhecer o que é daqui. Já quando nos apresentamos no Nordeste, estranham nosso sotaque", comenta o músico.
Às dez horas, os quatro membros do grupo colocam os chapéus no chão, montando o presépio. Daniella, de pé e de braços abertos, canta o Pai Nosso - uma proposta que afugentou evangélicos em outras apresentações. Os outros três se ajoelham. Alguns do público aproveitam para fotografar - um com câmera digital, outros com celular. Perto do encerramento, Daniella apresenta mais uma vez a trupe. "Esse é o grupo Mundaréu. Daqui de Curitiba." As últimas músicas são de Folias de Reis do Norte do Paraná.
Na opinião do motorista Luiz Fernando Anibeli, 49, que acompanhava, as pessoas do Norte do Estado estão mais acostumadas ao estilo das músicas apresentadas. Luiz Fernando é natural de Nova Fátima (31 km ao sul de Cornélio Procópio). "Mas faz 25 anos que moro em Curitiba e nunca tinha visto nada do tipo por aqui. Pode ver que está todo mundo admirado", diz.
Ao final, às 10h08, o público aplaude. "Penso que é coisa do Natal, pois teve vezes que os aplausos não vieram. Apresentar na rua em Curitiba é muito duro. Veja os músicos do Centro; eles ficam boa parte do tempo tocando para ninguém", comenta Melina. "Você tem que pegar as pessoas pelo colarinho para acompanharem. Ao mesmo tempo é muito importante estarmos chegando até elas."

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