Prejuízo no campo
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sexta-feira, 09 de fevereiro de 2007
Marcos Martins<br> Equipe da Folha 
Contenda, na Região Metropolitana de Curitiba, tem 16 mil habitantes. Já foi eleita ''Capital da Batata'' no início dos anos 90, época em que os 1,8 mil produtores rurais da cidade investiram pesado no produto. As colheitas rendiam cerca de 90 mil toneladas. Hoje, segundo o presidente do Sindicato Rural de Contenda, Pedro Boçoen, o número não passa de 60 mil. E deve cair ainda mais na próxima safra, depois que a atual crise derrubou os preços em até 90%. ''Alguns produtores estão buscando alternativas para sair da crise com o plantio de milho e feijão, até começando a preparar a terra para plantar, decepcionados com a batata'', conta Boçoen.
Aos 67 anos, o agricultor Edmundo Nelson Socezek está na área rural da cidade desde 1958. E conta que jamais viu um momento tão crítico quanto o atual. ''Muita gente se animou com os preços da safra passada e apostou na batata esse ano. Então não era esperado uma oferta tão grande, o preço desabou e a maioria está até deixando de colher a safra'', revela.
São produzidos dois tipos da batata: a industrial, que quando é frita fica mais dura, e a de consumo, que é vendida por quilo nos supermercados. Os preços também são diferentes. A saca de 50 quilos da industrial era vendida por até R$ 70 na última safra e a de consumo alcançava R$ 50. Este ano os valores ficam bem abaixo do esperado. A industrial caiu para R$ 33 a saca - valor negociado com as indústrias - e a de consumo para R$ 5. Já o custo de produção fica em torno de R$ 9 a saca. ''Isso gera um desânimo muito grande, principalmente de quem contraiu empréstimos para investir na batata. Há gente até querendo ir embora para a cidade, um problema muito grave'', conta o sindicalista.
''É uma situação muito crítica. Já são tantas as dificuldades na agricultura e agora passamos por isso. Antes você tinha milho ou soja para equilibrar, dava para fazer caixa com algum deles. Desta vez nem isso tem'', lamenta Socezek.
O drama narrado é vivido por Olivio Marques, 72 anos, que administra uma pequena propriedade junto com a família. Após prejuízos com a soja, no ano passado, ele resolveu investir no plantio exclusivo da batata. ''Como deu bastante lucro na safra passada e a da soja não tinha sido boa, decidimos aumentar o número de alqueires plantados. Até empréstimo no banco eu fiz, mesmo tendo dívidas do outro ano ainda, e agora é esse prejuízo. Não sei o que vou fazer'', desespera-se Marques, com uma dívida que beira os R$ 200 mil.
Para evitar mais prejuízo, os produtores estão evitando a colheita. ''O gasto para colher e armazenar é grande, então é melhor esperar mais um pouco, para ver se a crise passa. Já que ela vai estragar de qualquer jeito, pelo menos se estragar na terra o custo vai ser menor'', avalia Marques.
Em Curitiba, uma saída encontrada por produtores foi vender o produto diretamente ao consumidor, com preços que chegam até a R$ 0,30 o quilo, enquanto em supermercados o preço fica na casa dos R$ 0,80 o quilo. Os 22 pontos, autorizados pela prefeitura, foram distribuídos por vários bairros da Capital e serão fiscalizados pela Secretaria de Abastecimento. A comercialização será permitida até a segunda quinzena de março, das 8 às 18 horas.


