Em um tatame montado no salão de eventos da Acridas (Associação Cristã de Assistência Social) do Bacacheri, a aula de judô tem como personagens um professor dedicado e nove pequenos alunos, todos com um mesmo objetivo: dar um ''ippon'' - golpe máximo da arte marcial - nas dificuldades que aparecem pelo caminho. Sander Bruniera, 31 anos, instrutor do grupo, foi o responsável pela criação da oficina, na metade do ano passado, quando conheceu a Acridas por meio de amigos que ajudavam a instituição com cestas básicas. A doação era parte do projeto de contrapartida social, exigida dos atletas que recebem apoio da Lei Municipal de Incentivo ao Esporte da Prefeitura de Curitiba.
Em uma das visitas, Sander questionou: por que não aumentar o alcance, criando uma aula de judô para as crianças? ''A maioria não tinha tempo, mas apoiou a idéia. Aí meu professor, o Alan Leandro Vieira, elaborou a parte técnica e eu fiquei responsável pelas aulas'', recorda. Outro parceiro dele é o próprio filho, Sander Correia Filho, campeão Sul-americano de Judô. Com apenas 11 anos de idade, ele conta que quis participar para ajudar outras crianças. ''Com o esporte você aprende lições para a vida, como não abaixar a cabeça para uma dificuldade'', explica. Gilberto Leite, também judoca, é mais um integrante do projeto.
Além de golpes e fundamentos, ensinamentos como respeito, pontualidade e persistência entram naturalmente no roteiro das aulas, levando aos garotos e garotas uma perspectiva a mais para o futuro. E os resultados são colhidos a cada semana. Rogério Rafael Silvestre tem 11 anos. E conta que sua disciplina mudou bastante depois que começou a frequentar o projeto. ''Melhorei na escola, agora não faço bagunça como antes. Presto mais atenção'', conta. O interesse das crianças é tão grande que nem a chuva e o frio do último sábado foram desculpas para faltar na aula. Ketlyn Neves, 9 anos, não perde uma. ''É bem legal, eu adoro os movimentos'', empolga-se. E os elogios convenceram sua amiga Rafaela Mendes dos Santos, 7 anos, a experimentar a atividade. ''Vim hoje pela primeira vez e gostei bastante. Quero vir sempre'', promete.
Outro destaque das aulas é Franciele Nunes Conerado, 12 anos. Aluna de jiu-jitsu em outra oficina da Acridas, ela conheceu as aulas e foi convidada pelo professor a praticar também o judô. O interesse pelos golpes e o potencial apresentado renderam uma bolsa para treinar em um clube e a chance de disputar o Campeonato Paranaense da modalidade, em julho. ''Quero chegar até uma Olimpíada'', planeja. Outro objetivo de Franciele é ser professora, para ajudar outras crianças a encontrarem um caminho no esporte. ''O que você aprende aqui, somado ao esforço, é fundamental para a vida de qualquer um'', garante.
Do outro lado da cidade, no Xaxim, outra demonstração de que a atitude dos atletas pode fazer a diferença. Em 2002, por meio de uma tia, a psicóloga e karateca Carolina Walger, 25 anos, conheceu o Lar Dona Nenê, creche que atende dezenas de crianças do bairro. Com a experiência acumulada de outros projetos sociais, Carolina passou a comandar ali campanhas de doações de alimentos, brinquedos, ovos de páscoa e livros. ''Apadrinhamos a creche e estamos sempre pensando em ações que os ajudem, além de realizarmos algumas palestras'', revela. Para os próximos meses, o objetivo é orientar uma arrecadação de materiais escolares, que foram perdidos após uma chuva.
Dois pontos distintos de Curitiba, dois exemplos de cidadania. E que, segundo Carolina e Sander, têm benefícios bem mais amplos do que simplesmente cumprir a exigência de contrapartida social da prefeitura. ''Teve um caso de um menino que estava meio perdido, já tinha largado a escola e me falaram que ele só iria trazer problemas. Falei para ele vir aqui e hoje é um dos que mais me ajuda, voltou para escola e disse que aqui 'o professor me respeita e eu respeito ele'. É isso que motiva a gente'', emociona-se. ''O brilho nos olhos deles quando estamos lá é tudo'', resume Carolina.

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