Diante da vitrine com os dizeres ''Christmas sale'' (Promoção de Natal) e ''40% off'' (40% de desconto), a professora da rede estadual Vanda Maria Pereira, de 57 anos, fica em dúvida. ''Deve ser desconto, pelo símbolo da porcentagem'', arrisca. Assim como Vanda, muitos brasileiros desconhecem o que lojas de Curitiba anunciam.
O uso de palavras e expressões estrangeiras em campanhas publicitárias, no comércio ou em meios de comunicação de massa, é tema de projeto de lei, de autoria do deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que tramita desde 1999 e propõe a restrição do uso de estrangeirismos. Em dezembro, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou o substitutivo proposto pelo senador Amir Lando (PMDB-RO).
Enquanto o projeto segue em discussão não é difícil encontrar pelos estabelecimentos comerciais da cidade, em especial nessa época, faixas e cartazes anunciando festas e promoções com frases emprestadas de fora, principalmente do inglês. ''Tem um pouco de abuso sim. Marketing, por exemplo, não tem sinônimo em português, mas 'promoção' não tem porque escrever em inglês'', avalia Marcia Bach Anelli em frente a outra vitrine onde uma faixa anuncia ''sale 50%''.
Há dois anos e meio Marcia mora em Londres. Para ela, os brasileiros adotaram as expressões em inglês principalmente por causa dos Estados Unidos. ''É a cultura dominante. A tendência atualmente é copiar as coisas deles. Os italianos também adoram o inglês dos Estados Unidos'', observa. ''Querem ser diferentes usando esses estrangeirismos mas o efeito é contrário porque muita gente não sabe o que quer dizer. Se minha mãe ler essa faixa não vai entender.''
'Se eu perguntar, nem o vendedor sabe'
O debate sobre o uso ou não de expressões estrangeiras no cotidiano do brasileiro vai além. ''A língua é viva e num mundo cada vez mais globalizado as coisas se misturam, é inevitável que aconteça nas línguas em geral'', afirma o escritor e crítico literário José Castello. Para Castello, ainda que bem intencionadas, políticas restritivas são inúteis. ''A língua como é falada ou escrita é indiferente a qualquer decreto'', defende.
Quanto aos anúncios publicitários e apelos do comércio, Castello atribui o fenômeno a uma busca da classe média por auto-afirmação. ''O shopping é o paraíso da classe média. Hoje as grifes são como títulos de nobreza e medalhas condecorativas. Muita gente acha chique dar nomes em inglês. Isso é uma bobagem porque o inglês é língua disseminada hoje mas a classe média se apega a esses sonhos de superioridade'', explica Castello.
Para o vendedor ambulante Antonio Carlos Ferreira de Oliveira, a palavra ''wellcome'' (bem-vindo) na porta de um bar tem o efeito contrário e torna o local pouco convidativo. ''A desigualdade já começa nisso daí. Quem mais frequenta é quem tem estudo. A gente não vai saber nem o que está escrito. Às vezes o brasileiro não sabe nem o português correto, imagina o inglês'', comenta. O boné onde se lê ''Pacific Blue'' (Pacífico Azul) Oliveira comprou sem se preocupar com a mensagem que carregaria na cabeça. ''A gente vai pela boniteza. Se eu perguntar, nem o vendedor sabe'', conta.

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