A sessão da Câmara Municipal de Curitiba transcorria normalmente, há cinco anos. Entre projetos e votações, surge um fato inusitado: a discussão se pastel é fritura ou salgado. O motivo é o protesto de uma ouvinte de um vereador radialista, que reclamava não poder vender seu produto em uma feira da cidade, pois era considerado salgado - proibido, então, pelas regras. O embate durou cerca de três horas e envolveu ainda personagens curiosos. Para dirimir a dúvida, foi convidado - às pressas - um chinês, proprietário de uma pastelaria. ''Pegaram o cidadão do nada, ele nem sabia o que estava fazendo lá e ficou com medo, achou que ia ser preso. Chegou na hora e o coitado não conseguiu falar uma só palavra, de tão assustado'', relembra o vereador Paulo Salamuni (PV), na casa exercendo o quinto mandato.
Sem sucesso com o comerciante asiático, foi chamada uma funcionária do café da Câmara. Ao ser perguntada pelo presidente da sessão se pastel era salgado ou fritura, a resposta: ''O senhor quer que seja o quê?''. Depois de muitos apartes e ''pela ordem'', o assunto ficou na mesma: a ouvinte continuou sem vender pastel na feira e temas mais importantes para a sociedade foram deixados de lado.
O caso pode ser encarado como algo a parte, que não ocorre todos os dias. Mas não é o que a população pensa. Uma volta pelas ruas da cidade mostra que a imagem do Legislativo anda arranhada. E muito. ''É um absurdo. Tanta coisa para discutir, como educação para as crianças, creche, segurança, mas ficam perdendo tempo com isso. Com um salário alto daqueles, deviam arrumar o que fazer'', dispara a auxiliar de hemoterapia Terezinha Selenko.
Para o vendedor Izaias Roberto, as discussões no Legislativo vêm perdendo o foco. ''Algumas parecem piadas de mau gosto. Não dá para perder tempo com coisas assim'', ataca.
Mas quando a reportagem pergunta aos entrevistados se eles já foram a uma sessão da Câmara, a resposta quase sempre é negativa. Para o vereador Mário Celso Cunha (PSDB), é exatamente aí que o problema começa. ''A imagem é negativa porque a população não participa. A maioria pensa que vereador é para arrumar emprego, doar cesta básica, cadeira de rodas, mas não é'', argumenta.
Segundo ele, existem discussões de alto nível no Legislativo municipal, mas elas raramente são divulgadas. ''Aqui, como em qualquer outro lugar, existem altos e baixos, discussões boas e outras nem tanto. Mas aquelas sem sentido acabam tomando corpo, a mídia acaba divulgando mais'', lamenta.
Outra crítica comum pelas ruas é em relação aos projetos apresentados. Autor de duas proposições que recentemente causaram muita discussão na cidade - Horário Restrito de Funcionamento para Bares e Seguro de Responsabilidade Civil para Cães -, o vereador Jorge Bernardi (PDT) defende a necessidade das leis, dizendo que às vezes as pessoas não entendem os objetivos propostos. ''Há 20 anos eu quis proibir que fumassem em locais fechados, como restaurantes, e fui duramente criticado. Hoje praticamente não se pode fumar em lugar nenhum. Mas precisamos continuar lutando pelos interesses locais, que é nossa obrigação'', avalia.
Na opinião do assessor de vendas Jackson Roesler, o problema muitas vezes é a falta de preparo de quem chega ao poder Legislativo no Brasil. ''Às vezes é até uma boa pessoa, honesta, mas não tem preparo para exercer uma função tão importante quanto essa. É preciso ter uma proposta, um programa. E falta isso a muitos vereadores e deputados'', analisa.
Para o cientista político e professor de Ciências Sociais da UFPR, Ricardo Costa de Oliveira, na maior parte do tempo os vereadores atuam de forma simbólica e assistencialista. ''Eles atendem mais aos interesses de uma parcela de eleitores que o elegeu do que representando toda a sociedade, com a abordagem dos problemas de saúde e educação, por exemplo'', analisa.

mockup