São Paulo - Em uma padaria paraguaia de Ciudad del Leste, na fronteira com o Brasil, um turista pede ao atendente: ''Por fabor, yó quiero um pão na tchapa e una cueca-cuela.'' O idioma usado não é o português nem o espanhol. Mas o atendente entende muito bem o que o brasileiro diz.
O portunhol, mistura dos dois códigos, já ganhou status de quase idioma oficial entre turistas latino-americanos. Agora, ele começa a aparecer em livros, com capítulos que usam e abusam deste polêmico enrolar de línguas.
A escritora Clarah Averbuck lançou recentemente o livro ''Nossa Senhora da Pequena Morte''. Em um projeto inovador, com páginas pintadas e escritas a mão, Clarah traz um pequeno texto escrito em portunhol selvagem - uma espécie de dialeto que mistura, além de português e espanhol, línguas indígenas. Eis um trecho: ''Nuestro sangre e nuestro calos são que tenemos de mejor Quebrados somos mil. Inteiros somos apenas um. Entoces, vidre-se, hermanito, y deixe que el vidro se parta, porque en el final sempre nos partimos.'' A autora comenta sua opção. ''Acho natural surgir uma língua híbrida como essa. Para mim, o uso do texto traz um tom dramático. É bem mais interessante o personagem dizer 'Te Quiero'.''
O carioca Douglas Diegues é o precursor no movimento do 'Portunhol Selvagem'. Antes de se mudar para a Assunção, capital do Paraguai, Diegues trabalhava como roteirista de programas regionais da TVE de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
A mudança para o país vizinho se deu porque Diegues queria muito trabalhar com uma editora 'cartonera', que publica livros em portunhol. As cartoneras (o termo significa 'catadoras de papelão') surgiram na Argentina, a partir de uma experiência pioneira do selo Eloisa Cartonera. Na época da crise argentina do ano de 2003, o selo passou a produzir livros com capa de papelão comprado nas ruas de Buenos Aires e vendidos a preços populares.
No Paraguai, Diegues, junto com o artista plástico El Domador de Yakarés, fundou a Yiyi Jambo (menina cor de jambo, em ''guaranhol'', mistura de guarani com espanhol). Sua editora já publicou mais de 10 títulos neste formato. Os papelões são comprados por US$ 1,5 o quilo.
Por telefone, de sua casa em Assunção, Diegues só conversou com a reportagem em portunhol. ''Hablo mui com mi madre em portunhol (falo muito com minha mãe em portunhol). Ela bive em Ponta Porã (MS), é hija de paraguaia com espanhol e tiene sangre indígena (ela vive em Ponta Porã, é filha de paraguaia com espanhol e tem sangue indígena).''
Gilberto Gil apoiou
Mas como surgiu o portunhol? Diegues tem uma tese: ''Existem vestígios desde a obra 'As Galáxias' (1984), de Haroldo de Campos. Para mi, son textos de una época 'proto-portunhol-selváticas''', diz. Atualmente, para ele, o acontecimento mais notório foi o livro do paraguaio Wilson Bueno, ''Mar Paraguaio'', de 1992, onde os personagens falavam em guarani, espanhol, castelhano e português.
O mais importante do portunhol, segundo ele, é a liberdade que o 'dialeto' oferece aos falantes. ''Não tiemos gramática, não tiemos regras, mas todo mundo habla. Cada um a sua maneira e todos se entendem.''
Diegues defende com unhas e línguas o 'idioma' que até Gilberto Gil, enquanto ministro da Cultura, apoiou. ''É uma língua em gestação'', disse Gil em 2007, em texto publicado no portal do Ministério. Assim, ganha moral e reforça o escritor Diegues: ''Qualquer kabrón, qualquer princesa, qualquer vagabundo pode fazer literatura em portunhol selvagem, porque cada um tiene já um portunhol selvagem seu, aún no lo sabiendo (ainda que não saiba), y que jamais será igual al de ninguém.''

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