Antes de filmar sua primeira produção comercial, Marcos Piovesan, 32, recebeu algumas dicas de Pietro Manuguerra, da Pau Brasil. Para escolher os modelos, deveria levar em conta o trio rosto, corpo e pênis. ''Se o candidato não tiver os três, pelo menos dois deles'', aconselhou. O e-mail recheado de dicas do dono da produtora de filmes gays ainda elogiava o potencial do diretor curitibano e terminava com a expectativa de que Piovesan se tornasse seu fornecedor regular. O que poderia ter acontecido não fosse a falência da Pau Brasil.
''Sempre o estimulei a fazer filmes. Ele tinha o conhecimento e eu os equipamentos'', conta Rick, 41, que ficou atrás das câmeras em ''Homens Safados'' (2005), ''Vem Transar Comigo'' (2006) e ''Garotos Amadores II'' (2008), roteirizados e dirigidos por Piovesan. O nome dele como o de todos os citados na reportagem são artísticos. ''Receio que as pessoas não queiram ligar o seu projeto a alguém que faz filmes pornôs'', explica o diretor, que também trabalha em outras áreas.
Rick, que gravou e cedeu os equipamentos, não é gay e conta que sua esposa estranha a sua participação nos filmes. ''É um trabalho como qualquer outro. Você tem que levar na esportiva'', justifica. E dá a dica: ''Quando começava a esquentar, eu pegava a câmera e chegava quietinho.'' Rick lembra que neste tipo de filme o risco de chegar perto é o de ser atingido por fluídos corporais - o que efetivamente aconteceu com o câmera, que também cobre eventos sociais.
O primeiro trabalho da produtora curitibana Eros Filmes vendido à Pau Brasil foi ''Homens Safados'', de 2005, que custou R$ 2,6 mil e foi gravado com uma câmera Mini DV. ''Sempre gostei de filmes pornôs. Sonho um dia em fazer um pornô-arte'', comenta o diretor. Na abertura do longa-metragem de 82 minutos, um jovem aparece correndo no Parque Barigui. Logo depois, o personagem conta para a câmera como foi a sua melhor transa - tema do filme -, conhece um homem em um sex shop e vão para um apartamento em que acontece a cena de sexo. Cada um dos oito modelos recebeu R$ 200 por sua participação. O destaque, de acordo com o diretor, foi Billi, que aparece na capa do DVD vendido na Internet por R$ 39,90.
''Não é o R$ 200 que vai valer. Fiz porque gosto de me exibir um pouco'', conta o funcionário público de 48 anos. Billi foi o único ator a participar das três produções da Eros Filmes. Estimulado por Piovesan a tentar a carreira no exterior, muito mais rentável, Billi optou por ficar no Brasil - seu companheiro não topa que ele participe de filmes.
Piovesan conta que um bom ator apresenta ereção desde o momento em que tira a roupa - diferente do lugar comum na indústria pornô, o diretor pediu que seus atores não usassem Viagra e similares. Ao anúncio de que estaria fazendo um filme pornô em Curitiba no disponivel.com, site de relacionamento gay, afirma ter recebido centenas de e-mails de interessados.
''O curitibano tem medo de aparecer e ser reconhecido. Foi muito difícil formar o elenco, pois preferi no primeiro filme não trabalhar com garotos de programa, como é comum no cinema pornô brasileiro'', conta o diretor.
Billi respondeu na ficha de inscrição a algumas perguntas como dote em centímetros (19), altura e preferências em relação ao sexo - ativo, passivo etc. Enviou fotos e participou de uma entrevista - em que, diz, teve teste do sofá.
Na cena de ''Homens Safados'', a primeira do ator frente às câmeras, representa um personagem que é surpreendido pela paixão de seu cunhado. ''Para mim não teve nenhum tipo de problema. Só não consegui decorar a fala. Ainda bem que tem corte'', recorda.
Pontos turísticos
O Largo da Ordem, o Jardim Botânico, a Rua 24 Horas e o prédio histórico da Universidade Federal aparecem em trechos de transição. A maioria das cenas de sexo dos filmes foram gravadas em casas, apartamentos e em uma sauna. A única que foge à regra foi feita no meio do mato, no Parque Barigui. ''Ficamos numa posição em que podíamos ver se alguém estava chegando. Deu tudo certo'', lembra Piovesan.
''Daria para gravar muitas cenas clandestinas lá'', comenta o jovem publicitário que assistiu aos filmes a pedido da FOLHA. Ele preferiu não ser identificado, pois entende que Curitiba é cheio dessas coisas de ''o publicitário gay''. Em sua opinião, os trabalhos da Eros Filmes não fogem ao padrão da indústria pornô nacional, que é de baixa qualidade. ''Não existe nenhuma construção dramática. É só um arremedo de história, típico das produções gay'', diz. ''O único diferencial é a paisagem de Curitiba.''
Ele elogia a presença de um ator japonês - questão rara, em sua opinião, nos filmes gays -, afirma que o padrão viril e caucasiano de Billi é o mais vendável e diverte-se com uma cena de ''Garotos Amadores II'', com os personagens vestidos de Chaplin, pierrot e gladiador romano. ''Parece ter sido gravado na casa da avó. É de madeira pintada, típica de Curitiba'', diz. ''É a cena mais original de todas. Poderia muito bem ter saído de um conto de Dalton Trevisan.''
O editor da revista Sex Boys, João Marinho, 30, elogia o trabalho de Piovesan. ''Marcos é um produtor que está desenhando características próprias e que estou observando com particular interesse.'' Com a falência da Pau Brasil, a Eros Filmes entrou em acordo com a revista, que lançou ''Garotos Amadores II'' na edição de número 47, com tiragem de 15 mil exemplares. O que, pela primeira vez, indicou um prejuízo para a Eros Filmes. O primeiro filme custou R$ 2,6 mil e foi vendido a R$ 3,8 mil. O segundo, R$ 2,5 mil e R$ 4,5 mil - os lucros sendo divididos entre Piovesan, Rick e um investidor, que conversou com a FOLHA, mas preferiu não ser identificado.
''Garotos Amadores II'' custou R$ 3,5 mil enquanto foi vendido a R$ 3 mil. ''No Brasil, há uma concentração das produções no eixo Rio-São Paulo e embora sempre se possa evocar a mítica carioca dos 'garotos do Rio', filmes gravados em outras regiões podem representar caras novas na tela, e isso é bom'', afirma João Marinho.
Para o jornalista, o contato intenso de Piovesan com pornografia e grandes diretores do pornô gay, como Jean Daniel Cadinot, lhe propiciou um olhar diferenciado. ''Cito esse nome em especial porque percebo a influência dele em Marcos, que procura dotar suas produções de atores cuja beleza e comportamento se aproximam da realidade cotidiana do mundo gay, pessoas que você poderia ver - ou ter - indo ao trabalho, no metrô, na fila do banco.''

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