Imagine chegar aos 25 anos, com estabilidade financeira, negócio próspero e próprio, casa, comida, roupa lavada e cercado pelo carinho de familiares e amigos. Eis o sonho e objetivo de muitos, certo? Para o administrador de empresas Samuel Elias Bertolani de Oliveira, hoje aos 28, a independência financeira não era sinônimo de realização pessoal e profissional. ''Sam'', como é conhecido entre os mais íntimos, decidiu ir além.
''Tinha uma empresa de material cirúrgico e, à época, alcancei uma satisfação financeira bastante grande. Só que não estava feliz com o que fazia, não era tão pleno assim. Apesar de ganhar dinheiro, sentia-me uma pessoa incompleta. Busquei, então, o que realmente queria fazer para ser feliz: descobri-me no meio humanitário'', relembra.
No início de 2007, Samuel viajou para sua primeira missão, com a Médicos Sem Fronteiras (MSF), principal organização não governamental de ajuda médica no mundo (leia mais nesta página). Destino? O Zimbábue.
''No começo, familiares e, em especial, meus pais, ficaram um pouco relutantes porque é sabido que o profissional dos Médicos Sem Fronteiras vai por muitas vezes para a zona de conflito. Entre meus amigos, fui taxado de maluco, de doido mesmo. Hoje, todos encaram numa boa'', revela.
Localizado na África, o Zimbábue é um país que beira o caos: a saúde está em colapso, o sistema bancário idem e a inflação registra patamares astronômicos. Uma vez inserido na organização, Samuel, que fala três idiomas fluentemente, cuidou de toda a parte administrativa da missão.
''Planejava orçamentos, cuidava de folhas de salário, férias do nosso 'staff'. Fazia a parte não-médica. A MSF é extremamente organizada: até quando os médicos vão vacinar uma pessoa em campo, por exemplo, eles precisam de uma estrutura de logística que possibilite essa chegada. Dos jipes aos motoristas e peças para manutenção, tudo precisa ser calculado e planejado'', revela o rapaz.
Dentre as muitas cenas que viu, durante o ano em que residiu no Zimbábue, Samuel chama a atenção para a questão do HIV. ''Cerca de 26% da população do país tem prevalência do HIV. Enquanto no Brasil sabemos de um ou outro caso, no Zimbábue as pessoas portadoras do vírus da Aids batem à sua porta, pedem emprego e tentam sobreviver, num país em que 80% da população sofre com o desemprego. O que meus olhos viram não foi uma situação de pobreza. Vai além: trata-se de miséria mesmo.''
Do convívio com expatriados que se somaram à missão, Samuel, que residiu com um francês e uma dinamarquesa, trouxe boas recordações. E não se enrolou no idioma. ''Acordávamos às 6h e trabalhávamos oito horas, diariamente. Aos fins de semana, o lazer era assistir a filmes e fazer um churrasco, que, por lá, era de pavão (risos). Tinha como colegas belgas, franceses, etíopes, noruegueses e italianos. A comunicação era em francês e inglês e, como muitos projetos da MSF Internacional na África são em países colonizados por Portugal, nossa língua era muito bem-vinda.''
De férias em Londrina até o próximo dia 10, Samuel afivela as malas para mais uma missão. Serão seis meses de estadia no Congo. ''A MSF tem uma administradora internacional, que analisa seu perfil, quantos idiomas você fala e qual sua experiência. Desta vez, aceitei o convite de ir ao Congo e espero ver um cenário bem parecido com o de Zimbábue. No entanto, estou otimista em relação à economia do país, que parece estar em melhores momentos. O que me preocupa, mesmo, em relação ao Congo são alguns focos do Ebola, muito agressivo. Isso está me preocupando, mas não com minha saúde, e sim com o que vou ver em campo.''
Nascido em Curitiba e residindo em Londrina desde os 10 anos, ''Sam'' já vislumbra seu futuro. E ele passa bem longe dos domínios pés-vermelhos. ''Não me imagino fazendo outra coisa a não ser isso. Quero continuar no meio humanitário e me imagino, em cinco anos, sendo chefe de missão, esse é meu objetivo. Sou muito feliz com minhas novas atribuições e em momento algum me arrependo. Aprendi a ser mais tolerante, e, se antes queria só ajudar, hoje, acho que todo mundo tem direito a tratamento de saúde. E é para isso que as ONGs humanitárias estão aí.'' Aos amigos de Samuel, fica a dica: Londrina, para ele, só nas férias.

mockup