Não se sabe exatamente o porquê, mas a Rua Cruz Machado tornou-se referência para atividade de prostituição em Curitiba. Especula-se há cerca de meio século. O endereço famoso carrega esse estigma que também pesa para os moradores do local e das adjacências. "Já teve o momento de prostitutas na Cruz Machado, agora vejo que cresceu o número de travestis. O problema é que a gente se depara com situações contrangedoras na porta de casa. E isso vem ficando frequente de uns quatro anos para cá. Imagine, minhas filhas chegando em casa, às sete horas da noite, e encontrar essas pessoas fazendo ponto bem aqui em frente", desabafa a médica Maria do Rosário Athayde, 60 anos.
Ela mora na Rua Saldanha Marinho e vive no Centro desde que nasceu. A casa da sua avó, aliás, ficava na Rua Cruz Machado, assim como a do marido, o desembargador Antônio Loyola, 62 anos. "Nunca tive medo de morar aqui, me sinto muito à vontade nessa região. Sou acostumada a todas as facilidades do Centro, caminho na Rua das Flores, frequento as feirinhas. Tenho banco, padaria, mercado, banca de jornal, tudo perto de casa. Também vou ao trabalho a pé. Não passa pela minha cabeça sair daqui", explica ela, que convive com um hotel de alta rotatividade, também na vizinhança.
Ela reclama também de uma boate que segundo a vizinhança funciona como bordel. "Na verdade, a movimentação deles não me incomoda na rua, traz até certa segurança para a rua. O problema é a publicidade que eles fazem, no início da noite. Colocam cartazes enormes com bunda de mulheres nuas. Quando convido amigos para virem em casa, passo muito constrangimento", conta K.R., moradora do Centro, que prefere não se identificar por medo de represália.
"A gente sabe que não é uma boate, mas um bordel. O muro é pintado de roxo e, à noite, tem até luz vermelha. Já mudou de nome umas quatro vezes, em menos de um ano", acusa ela, que mora numa "fortaleza" depois de ter a casa invadida por ladrões. "Mas não vou sair daqui porque a região virou uma zona. Deveríamos ganhar apoio, as famílias deixam o Centro mais decente. Temos direito adquirido de permanecer aqui com dignidade porque vivemos aqui a vida inteira. Queremos mais policiamento nas ruas para espantar o banditismo e fiscalização dessas casas", pede K.R.
Outro problema levantado por Maria do Rosário, a médica que fez o desabafo no início desta reportagem, é a migração de usuários de drogas para a Saldanha Marinho, que segundo ela, intensificou após a instalação de câmeras na Praça Tiradentes. "Do começo do ano para cá, aumentou muito. Eles ficam na pracinha Santos Dumont, usando drogas a qualquer hora, sem constrangimento. Nós, os moradores, é que ficamos constrangidos e por isso nos manifestamos, apesar do medo de represálias. Já fui até eles e disse para fumarem na frente da casa deles", conta.
"Estamos em cima das autoridades e denunciamos a situação. O governo é que pode evitar a decadência do Centro e ajudar a preservar os bons costumes e um ambiente saudável aqui. Deveriam criar um espaço próprio na cidade para essas atividades, sem incomodar as famílias das redondezas", sugere Maria do Rosário, contando que mantém uma relação afetiva com o Centro. A casa onde mora hoje, foi construída no lugar que era o quintal da casa dos
pais dela.
"Não precisamos sair do nosso espaço, que gostamos e vivemos desde que nascemos. Não aceito ver as coisas piorando e ficar de braços cruzados, as pessoas que pertubam é que devem sair daqui. Guardo uma nostalgia no coração do passado, dos amigos que viveram aqui e foram embora. Ainda tenho esperança que as coisas podem voltar a ser boas novamente", acredita Maria do Rosário Athayde. "Se Deus me der força, quero morrer aqui, como os meus pais e meus avós. Estamos resistindo, bravamente", disse K.R.
A FOLHA entrou em contato com a prefeitura para repercutir as reclamações dos moradores, mas o município respondeu que a responsabilidade seria da Polícia Militar (PM). A PM também foi procurada pela reportagem, mas a assessoria de imprensa não retornou o telefonema até o fechamento da matéria.

mockup