Os super-heróis costumam ter identidades secretas que só mesmo os mais próximos conhecem. Pois Claudio Tencati é justamente um desses. Até mesmo quem não gosta/entende de futebol pode confirmar o técnico do Londrina Esporte Clube (LEC) como um dos heróis londrinenses de 2015. Sob comando dele, o Tubarão voltou à Série B do Campeonato Brasileiro depois de 12 anos. A conquista ainda resgatou o amor de uma cidade inteira pelo time alviceleste.
Nascido em Indianópolis (cerca de 150 quilômetros de Londrina), Tencati se mudou com apenas 2 anos para a cidade vizinha, Cianorte. "Lembro muito pouco de morar no sítio", conta o técnico, que ainda tem o município como sua referência familiar. É lá que moram sua esposa e os dois filhos e para onde ele viaja sempre que tem folga nos treinos e nos jogos.
Foi em Cianorte também que teve início a carreira futebolística de Tencati, filho de "um palmeirense roxo". "Meu pai morou em São Paulo, teve até carteirinha do Palestra Itália", explica o técnico, que começou a jogar aos 8, 9 anos sob a influência também dos cinco irmãos mais velhos (ele tem ainda duas irmãs).
Com 14 anos, Tencati passou a treinar em equipe, primeiro no time de Cianorte, pelo qual disputou Jogos da Juventude e Jogos Abertos, depois no Matsubara (Cambará) e no Grêmio de Maringá. "Como todo mundo, eu queria ser atacante, queria marcar gol", entrega o técnico, que foi lateral-direito. "Não tinha estatura para zagueiro e fui me deslocando para a lateral direita"
A paixão pelo futebol e a vontade de ser um jogador bem-sucedido, obrigou Tencati a sacrifícios na adolescência. "Muitas vezes comia pão com pão. Era diferente de hoje e isso eu falo sempre para os meninos (jogadores das categorias de base), que eles têm tudo, têm ajuda de custo, local de moradia excelente."
"Naquela época eram tempos mais difíceis, não tinha salário, era o que o time tinha para oferecer", lembra. "Hoje é até uma lembrança engraçada, quando a gente tinha que ir até a horta do time para ver alguma coisa para comer, para diminuir a fome." E para matar as saudades da família, precisava disputar um telefone público com os outros jogadores. "Ligava do orelhão para um vizinho, não tínhamos telefone em casa", relata.
"Meu pai achava que futebol não era profissão, então ele queria que os filhos estudassem para ter um bom emprego", conta Tencati, atual recordista no Brasil como o técnico que está há mais tempo à frente de um time nas quatro divisões do campeonato. A mãe, que já se orgulhava quando contava para os parentes que o ‘Claudio era jogador’, agora turbinou a admiração pelo filho. "Ela me vê todo dia no Globo Esporte", alegra-se.
Mas nem tudo foi só alegria durante os quase cinco anos como técnico do LEC. Tanto que em 2012, Tencati passou a contar com o atendimento de uma psicóloga em sessões individuais e coletivas com a equipe de jogadores. "Foi um ano de muita turbulência, não conquistamos nada", lembra. "Pediram minha cabeça", diz sobre o ano em que o Tubarão não conseguiu acesso à série D.
"Tinha uma resistência em ter ajuda psicológica, é assim no meio futebolístico, não é muito aberto a essas ideias. Mas ela (psicóloga) me ajudou a ter uma visão diferente", explica Tencati, que segue com as sessões. "Me ajudam a manter o controle emocional. Como técnico, estou no centro, tenho que dar satisfações para o presidente do clube, para os meus jogadores, para a torcida, para a imprensa e também para a minha família", explica.
Em 2015 Tencati celebra 10 anos como técnico e cita o incentivo da professora Rose Pascotto, que o ajudou a tomar um rumo profissional. "Me via trabalhando em qualquer outra coisa que não fosse futebol", confessa. É que depois de encerrar precocemente o sonho de se tornar jogador profissional, ele ficou dois anos sem poder ouvir falar de futebol. As lesões e duas cirurgias no joelho o fizeram desistir da carreira. "Não falava sobre futebol, não via jogos nada", lembra. O rompimento foi tão sério, que ele chegou a cogitar a mudança para São Paulo para trabalhar com um dos irmãos em uma farmácia.
Por indicação da professora Rose, ele deu início a um projeto social de uma escolinha de futebol para crianças e adolescentes de 10 a 18 anos. "Foi dando certo", relata o técnico, que então se decidiu pelo curso de Educação Física. "E aí deu no que deu", brinca. Por cinco anos, foi preparador físico do time de Cianorte. "Mas entendi que tinha um feeling melhor para a parte técnica", lembra sobre a mudança de cargo.
Para alívio dos torcedores londrinenses, Tencati avisa que "a tendência é ficar e dar continuidade ao projeto".

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