Por que temos tanto medo de sair da caverna?
Desde o século XVII estabeleceu-se uma cisão entre o visível e o invisível como formas de perceber a realidade, moldando uma visão de mundo materialista
A idéia de sair de um mundo limitado e sufocante para um universo de luz, formas, cores e infinito horizonte foi inspirada no Mito da Caverna, de Platão, filósofo grego da Antiguidade. Por volta de dois mil e quinhentos anos atrás, os pensadores gregos consideravam tão importante refletir sobre a realidade, que elevaram esse exercício à condição de arte: a arte do diálogo, também definida como um conceito, o da dialética.
A essa conversa, tanto o visível, quanto o invisível eram bem-vindos. À medida que a busca do conhecimento avançou, contudo, houve uma substancial mudança. ''Isso ocorreu por volta do século XVII, quando foi edificado o que se convencionou chamar de Ciência Moderna, que é o que se tem até hoje, em todos os níveis escolares'', explica o professor Ivan Guerrini, pós-doutorado na área de Caos e Complexidade em Física Aplicada pela Universidade de Nebraska, EUA, e que esteve recentemente em Londrina, para iniciar um curso e lançar um livro (veja em Serviço).
Divisão de territórios - Dois nomes destacam-se neste momento crucial da história da humanidade: o do filósofo francês René Descartes, e o do cientista inglês Isaac Newton. A soma de suas idéias em relação a como ver e entender o mundo foi um marco daquele período, estimulando a divisão do conhecimento e do esforço humano entre a Ciência e a Igreja.
''A grosso modo'', explica o professor, ficou estabelecido que ''tudo que fosse visível, seria da competência da ciência; e tudo que fosse invisível, da competência da religião, entendida aqui como religião católica, predominante''. Essa visão de mundo permaneceu e permeou as descobertas seguintes, em especial as dos séculos XVIII e XIX, ''quando houve um grande crescimento da ciência, com a revolução industrial''.
O que aconteceu depois, no século XX, com a Teoria da Relatividade e a Física Quântica, ''de modo geral, não se aceita ainda'', complementa. ''Os órgãos de fomento, as cúpulas das universidades, principalmente em termos de Brasil, são instituições que, via de regra, só acatam os pressupostos clássicos. Os que acreditam que há alguma coisa na Nova Ciência, com exceção de alguns estudiosos, atuando em nichos determinados, preferem ficar quietos''.
Perigo à vista - Isso porque, como explica o professor, ''há muito perigo em aceitar a Nova Ciência. Que tipo de perigo? Por exemplo, de você não conseguir mais verbas para sua pesquisa; não conseguir mais projetos aprovados ou bolsas, por conta de ser tachado de pseudo-cientista. Isso, a meu ver, reflete um medo muito grande, o medo do desconhecido. É que no fundo, todos temos medo do novo, o que é inerente à condição humana''.
Mas, a partir do século XX, tudo começou a mudar. A Física Quântica, na opinião de Guerrini, ''mostrou, principalmente, a indeterminação do mundo microscópico - quando se fala de elétrons, das partículas subatômicas''. Já a Teoria do Caos, desenvolvida nos anos 60, ''veio falar das incertezas do mundo macroscópico''.
E, com a Teoria do Caos, começou-se a ouvir falar do Efeito Borboleta. O que seria isso? De acordo com Guerrini, ''descobriu-se que uma pequena borboleta, batendo as asas na Amazônia, poderia causar um tornado no Texas, em termos meteorológicos. E o que é uma borboleta batendo as asas?'', pergunta. ''Que quantidade de ar ela vai movimentar? Nada, é desprezível. Mas essa é a idéia mesmo. É o desprezível aqui que causa um tornado lá na frente. Assim, tudo vira incerto no sistema natural. Não existe mais controle. E o grande medo dos cientistas clássicos é a perda do controle''.
Poder ameaçado - A sensação de perda do controle traz a preocupação com a perda do poder. ''Mexeu com o poder... As estruturas sentem-se ameaçadas. Quando você começa a ir muito com esses conceitos para o lado espiritual'', comenta Guerrini, ''a Igreja perde o poder. Quando você começa a ir muito para o lado da Física Quântica, para o lado da Nova Ciência, a Ciência Clássica perde o poder. E ninguém quer perder o poder''.
E no dia-a-dia, é essa forma clássica de ver o mundo que prevalece, uma vez que a sociedade aceita e reproduz ''os ditames da Academia''. Os cientistas, os pesquisadores, as universidades expressam uma convicção, sobre qualquer questão relacionada ao nosso viver - um remédio, um alimento, um método de estudo, um tratamento de saúde -, comprovados cientificamente, ''e só então nos sentimos confortáveis para usar. Todo mundo parece esperar a Academia autorizar, para então comprar a idéia. A Academia de hoje, principalmente alguns centros maiores, parece ter um poder semelhante àquele da Igreja na Idade Média''.
'Sois deuses' - O olhar, a visão de mundo da sociedade hoje ainda se enquadra no ponto de vista clássico, linear, conforme Guerrini. ''Você tem experiências do linear. Se você trabalhar 1 hora, você ganha x, se trabalhar 10 horas, ganha 10x. Mas não é assim na Nova Ciência. Por esse outro prisma, se você mudar o seu pensamento, você está mudando sua vida, ou seja, o sutil tem um imenso poder. Você tem potencial para isso dentro de você. Isso, pra mim, tem tudo a ver com a religião, mas não a religião formal. Pois se você pegar a Bíblia, você vai ver lá o Mestre dizer: 'Sois deuses'. É no sentido de você poder muita coisa. Você ser capaz. Você tem um potencial divino dentro de você. Você pode mudar sua vida. Isso, bem compreendido, está longe de ser uma receita de auto-ajuda barata, como querem alguns, por conveniência''.
''Minha vida está ruim. O salário está ruim. Não consigo me relacionar com os filhos. Minha sogra está doente.... Aí você só toca a vida, você não vive. Você vive muito perto do equilíbrio. A gente precisa viver longe do equilíbrio, como sugeriu Prigogine, o ganhador de Prêmio Nobel. Longe do equilíbrio significa viver num aparente caos, cheio de incerteza, mas cheio de potencial e criatividade também. Para isso, você precisa de ousadia, um pouco de rebeldia - uma rebeldia saudável. Você precisa ser um pouco conspirador''.
Serviço:
Curso: ''Caos, Complexidade e Física Quântica'', ministrado pelo professor Ivan Guerrini em quatro módulos - de março a junho. Mais informações:
Associação Portal da Luz - Centro de Estudos Energéticos de Londrina
Rua Mossoró, 170 / Fone: (43) 3345-0617, das 14 às 18 horas
Livro: ''Nas Asas do Efeito Borboleta: O Despertar do Novo Espírito Científico'' - que traz um debate sobre as aplicações deste novo modelo de ciência na saúde e educação. A organização é do professor Ivan Guerrini, do Instituto de Biociências da UNESP (campus Botucatu), também um dos autores da obra. A publicação encontra-se à venda na Livraria Porto do Shopping Catuaí.





