São Paulo - A fama de suas vozes é tão forte quanto o anonimato de seus rostos. Graças a um grande empenho à frente do microfone, essa turma faz Sylvester Stallone falar um português livre de sotaques e Chaves ter graça mesmo nas piadas mexicanas mais infelizes. A dublagem, uma atividade que só cresce com a estréia de séries de canais pagos e com a quantidade de filmes estrangeiros nos cinemas da cidade, é a arte de colocar palavras certas em bocas muitas vezes bem tortinhas.
A reportagem passou um dia em dois estúdios da cidade de São Paulo para descobrir como é o processo, do começo ao fim, de um trabalho de dublagem. O primeiro destino foi a Centauro Comunicações, em São Paulo. Em uma das salas acontecia a gravação de episódios de desenhos animados. Outro estúdio visitado foi o Master Sound, no Tucuruvi, também na Capital paulista, onde os personagens de um longa norte-americano ganhavam suas falas em português.
O trabalho de dublagem é dividido por etapas. Primeiro a empresa recebe o vídeo com o desenho ou filme do cliente e um script em inglês, que é mandado para um grupo de tradutores. ''Muitas vezes, eles enviam também, junto com a tradução, uma sinopse com as características dos principais personagens para agilizar'', explica Jeferson Dutra, operador de áudio da Master Sound. As falas, para facilitar, são divididas em anéis, que também podem ser chamados de loops ou takes.
Como o dublador recebe o salário por tempo (ganha em média R$ 70 por hora), cada 20 segundos corridos correspondem a um anel. Assim, o texto do filme é mapeado e dividido para que cada ator grave individualmente.
A segunda etapa é a escolha dos profissionais. O elenco é convocado pelo diretor de acordo com as características da voz de cada um. ''Escolhemos também pelo espírito da interpretação do personagem, para chegarmos ao mais próximo do original'', explica a diretora da Centauro, Cláudia Carli.
Algumas emissoras, como a Rede Globo, possuem casting fixo de profissionais em São Paulo e no Rio de Janeiro. Apenas eles podem realizar os seus trabalhos. Para ser dublador não basta querer. O profissional precisa ter o DRT, a carteira profissional de ator, e ainda levar jeito para a coisa.
Na maioria das vezes, o dublador não sabe qual personagem terá de interpretar. Ele descobre na hora. Para a realização da dublagem, é necessário um operador de áudio e um diretor que dá todas as coordenadas e assiste aos filmes com antecedência. ''O diretor centraliza a parte artística. Somos nós que passamos a situação dramática e a parte técnica para o ator'', diz Cláudia.
Dentro de um dos estúdios da Centauro, Fábio Lucindo, de 23 anos, dublava o principal personagem do desenho ''Pokémon'', o Ash. Com o script na mão, um fone no ouvido para escutar a voz original, uma televisão à frente para acompanhar os gestos labiais e um microfone, ele tentava imitar o personagem. Há 12 anos, Fábio começou a trabalhar na área e há 10 faz o Ash. A voz de Zac Efron, o Troy, do filme ''High School Musical'', também é dele.

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