POR DENTRO DO ALTAR - Os segredos das 'Pedras Dara'
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sábado, 12 de abril de 2008
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Mergulhando de cabeça na história, vamos aos três primeiros séculos da era cristã, no tempo em que aqueles que professavam sua fé em Jesus Cristo eram perseguidos pelos imperadores romanos. Não faltavam decapitações, crucificações e até gente jogada às feras. Era fatal: os capturados que insistiam em se declarar cristãos morriam. Estudiosos dizem que centenas de homens e mulheres foram assassinados nos séculos I, II e III.
Dessa forma surgiram os primeiros mártires e santos da Igreja Católica. Alguns conquistaram tantos devotos que, até hoje, 18 séculos depois de se tornarem mártires, ainda são famosos. É o caso de Santa Cecília, a patrona da música, e de São Sebastião, o padroeiro da cidade do Rio de Janeiro.
O testemunho de fé dos primeiros mártires era tamanho que o sacrifício deles chegava a ser comparado ao do próprio Cristo em sua morte de cruz. ''No século III, os cristãos celebravam a eucaristia em cima dos caixões dos mártires. Hoje, o altar tem para nós o significado do sacrifício e também da refeição'', revela o padre Joel Ribeiro Medeiros, especialista em liturgia da Arquidiocese de Londrina.
Assim, os mártires passaram a representar sacrifício e, da mesma forma que fez de seus caixões os primeiros altares, a Igreja Católica resolveu colocar em todos os seus altares uma relíquia, que pode ser um fragmento de osso, pedaço de roupa, fio de cabelo ou outros objetos que tenham pertencido a algum mártir.
''Com o passar do tempo entendeu-se que as relíquias também podiam ser de algum santo que não tivesse sido martirizado'', explica padre Joel. O fato é que até o Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, a norma exigia a confecção de uma pedra, chamada ''Dara'', na qual era colocada a relíquia de algum mártir e, na sequência, essa pedra com a relíquia era inserida no centro do altar.
Sem identificação
Voltando do nosso mergulho histórico e desembarcando na Londrina atual, encontramos três entre as 72 paróquias da cidade que ainda têm a Pedra Dara com as relíquias de santos em seus altares. O problema é que ninguém sabe dizer o nome dos santos que têm um pedacinho de si em território londrinense.
Na paróquia Nossa Senhora de Fátima, uma das mais antigas da cidade, que fica na Vila Casoni (Zona Leste), a pedra de mármore que deve guardar uma relíquia está lá, no centro do altar. Porém, o padre Mário Minuti, o responsável pelo templo, não sabe a identidade do santo.
''Provavelmente deve ser o pedaço de um osso. Tenho a certeza de que há uma relíquia em nosso altar, mas não sei dizer de qual santo seria porque nada foi registrado no Livro Tombo da paróquia'', lamenta o padre.
É provável que a relíquia tenha sido depositada no altar da Vila Casoni em 1985, ano em que o então arcebispo de Londrina, Dom Geraldo Majella Agnelo, consagrou o altar e o templo.
Na paróquia Nossa Senhora Rainha dos Apóstolos, do jardim Shangri-lá (região central), que está no ano do seu cinquentenário, o altar é de madeira maciça. A Pedra Dara também está lá, mas o mistério se repete. O padre Antônio Luiz Radigonda, que responde pela igreja, até procurou no Livro Tombo, mas nada, não há registro algum sobre a relíquia.
''Sei que aqui está a relíquia de algum santo, porém não sei de qual'', resigna-se o padre Antônio. Questionado se não lhe causa desconforto o fato de não conhecer qual relíquia está em sua paróquia, o padre surpreende. ''Não me interessa saber, pois o sentido é ter a relíquia do mártir no altar, não precisamos saber qual é. De repente pode até ser relíquias de vários santos que temos aqui''.
Na paróquia Coração de Maria (Centro) o mistério é ainda maior. O altar de mármore também possui a Pedra Dara, que é menor em relação às pedras das outras paróquias visitadas pela FOLHA. No entanto, o padre Ozanilton Batista de Abreu desconhece se há relíquias. ''Consultamos o Livro Tombo, mas não encontramos nenhum registro''.
Voltando ao padre Joel, o especialista em liturgia, ouve-se uma declaração em tom de alerta. ''A relíquia é uma parte de um santo, isso tem um grande significado para a nossa Igreja, pois representa testemunhos de fé. O fato do desconhecimento das relíquias que temos nos altares de nossa cidade é uma perda considerável para a evangelização'', finaliza.


