Por dentro de uma reunião
A reportagem da FOLHA acompanhou uma reunião dos Barnautas, na última quinta-feira, no Bar Carmel, em Curitiba. Com o bar ainda vazio, os Barnautas já estavam sentados na mesa. Bom papo, cerveja gelada, ambiente agradável, principalmente pela companhia. Embora gostem de negar, todos são chegados em uma boa cerveja gelada - e quem não é?
Como toda confraria que se preze, o Barnautas tem suas rotinas, manias e regras. E é até difícil falar de membros individuais, devido a amizade sincera e divertida que transparece. ''O bar é o ambiente, o negócio é estar junto'', diz Paulo Meira, um dos membros.
O ritual começa com a passagem, de mão em mão, do Kit Barnautas. Dentro, os remédios mais adorados por dez entre dez bons bebedores (como diz o ditado - e todo ditado deve nascer em mesa de bar - bebe-se para ficar ruim, por isso o remédio).
Um comprimido antes, um depois, estão todos prontos para começar os trabalhos. Logo no início, já dão a letra: filhos, maridos, mulheres, namorados e namoradas são proibidos de participar. Para tomar uma cerveja com eles - privilégio da reportagem - tem de ser Barnauta.
''Muita gente quer participar, mas a gente não convida. Só entra quem é indicado por outro membro. Além disso, precisa ter o perfil do grupo'', diz Denise, caindo na risada. Discutem, discutem e chegam ao perfil de um Barnauta: não pode ser chato, tem de ter alto astral e bom papo. E, lógico, gostar de cerveja.
Antes de se tornarem Barnautas, trabalhavam juntos mas se conheciam pouco. Outros, nem isso. Os laços de amizade foram ficando estreitos no bar. Hoje, nenhum deles se imagina sem as quintas-feiras reservadas. ''O espírito que prevalece aqui é o da conversa. Por isso, para gente frequentar, não pode ser balada, nem restaurante. Tem de ser boteco'', afirma Fernando Barbalho.
E de bar entendem, nem é preciso falar. ''Já fomos em todos os 20 bares do concurso da Bohemia'', diz Barbalho, referindo-se ao concurso promovido pela marca de cerveja, ''mas nunca fomos consultados de nada. Nem queremos''. Riso geral.
A afirmação tem um fundo de verdade. Mesmo dando notas aos botecos, não pensam em fazer um hipotético ''Guia Barnautas dos Melhores Bares de Curitiba''. O que avaliam fica restrito a eles mesmos. ''Somos independentes. Não queremos ser jurados de boteco'', diz Barbalho.
O bom é beber sem compromisso. Essa é a terapia deles. ''Dispensei meu analista por causa do Barnautas'', brinca Francisco Guimarães. ''E eu parei de frequentar as aulas de meditação'', completa Déboa Grimm. E todos caem na risada. ''Aqui a gente fala sobre o mundo'', filosofa Paulo. Tem coisas que acontecem só na mesa de bar.





