Por dentro da Câmara de Vereadores
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de março de 2007
Marcos Martins<br>Equipe da Folha 
Sob os tapetes vermelhos do Palácio Rio Branco, 38 vereadores debatem a criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar invasões de terra na capital. É a rotina de mais uma sessão da Câmara Municipal de Curitiba, realizadas às segundas, quartas e sexta-feiras, às 16 horas.
A discussão se arrasta em meio a apartes, explanações na tribuna e intervenções da mesa diretora. Pelo sistema de som ecoam vozes discordantes e palavras de apoio, insultos e gentilezas. Contrastes que explicitam a diversidade de estilos e perfis encontrados na casa.
Há quem tenha origem de movimentos sociais ou quem chegou ao parlamento com o apoio dos trabalhadores de uma classe específica, como farmácias, postos de gasolina e feiras livres. É espaço também para mestre de capoeira e ex-ídolo do futebol. Essa composição demonstra bem a heterogeneidade da população curitibana, analisa o cientista político e professor de Ciências Sociais da UFPR, Ricardo Costa de Oliveira.
Mas na hora dos discursos, a atenção dos parlamentares não é total. Conversas paralelas tomam conta do plenário, vereadores conversam ao celular, cadeiras ficam vazias. Líder do governo responsável pelo encaminhamento dos projetos vindos da prefeitura e atualmente no sexto mandato, Mário Celso Cunha (PSDB) defende os colegas. Para ele, nem sempre o bate-papo é sinal de desrespeito. Muita gente reclama, falam que não estamos prestando atenção, mas é preciso entender que enquanto alguns estão debatendo um projeto, outros estão conversando sobre o tema que será discutido na seqüência, argumenta.
Experiente, o vereador avalia ainda o atual momento do legislativo. Em cada legislatura se renovam as idéias, as pessoas, e isso aquece o trabalho. Hoje temos vários projetos da área de internet, assunto importante no momento, apesar de eu achar que quanto mais se muda, pouco se muda. É aí que está o desafio do vereador, buscar sempre algo que facilite a vida da comunidade, resume Cunha.
Se nada parece novo para ele, Luiz Carlos Déa, conhecido como Mestre Déa (PP) - apelido alusivo à capoeira, que lhe deu notoriedade -, vive o oposto. Ocupando a cadeira desde fevereiro, quando substituiu Ney Leprevost (PP), eleito deputado estadual, o novato considera estar em uma fase de observação. Há uma frase dos meus pais que se encaixa bem: enquanto você não tem o que falar, ouça. Digo que sou um mestre na capoeira, mas que aqui sou um pupilo. E espero aprender bastante, sou um bom aluno, promete. Com base eleitoral na Vila Lindóia, onde há 18 anos coordena ações sociais, Déa ainda não apresentou projetos, o que espera fazer em breve. Quero atuar em defesa do esporte amador, bastante esquecido, planeja.
Ao acompanhar a sessão, é difícil não notar a predominância masculina nas cadeiras. Das 38, apenas cinco são ocupadas por mulheres. Minoria que já rendeu situações de preconceito à Roseli Isidoro (PT). Certa vez fui chamada de mulher-macho por um colega, durante uma discussão. Fiquei surpresa e indignada. Acho que, apesar das divergências, o respeito é fundamental, sugere a vereadora, primeira mulher a ser reeleita para a presidência de uma comissão (Urbanismo e Obras Públicas) na história do legislativo municipal. É sinal de que as coisas estão mudando. Tenho esperança e certeza que em breve vamos ser maioria por aqui, planeja.
Em meio a uma mesa em que se acumulam centenas de papéis, o presidente da Câmara, João Cláudio Derosso (PSDB), há onze anos no cargo, define a rotina como uma luta constante para melhorar o trabalho. Em 2006, mais de 12 mil documentos foram discutidos pelos vereadores. Na pauta de 2007 devem estar projetos que alteram a Lei Orgânica do Município, a discussão sobre o fim da reeleição para a presidência da Casa e artigos que limitam o posicionamento dos parlamentares na questão dos recursos do executivo. Outro desafio, segundo Derosso, é buscar recursos para a construção de um novo prédio que passará a abrigar o plenário e a reforma do atual espaço. Projeto já temos, mas é uma obra cara, em torno de R$ 12 milhões. Então estamos atrás dessa verba, explica o presidente. Por enquanto não há prazo para as obras.


