Cidade do Vaticano - O Papa alemão Joseph Ratzinger, de 79 anos, que lidera quase um bilhão de católicos com o nome de Bento XVI, completa hoje o primeiro ano de seu pontificado. Aqueles que esperavam que o Pontífice conservador e culto se revelasse um reformista hábil ficaram frustrados.
  Bento XVI tentou durante todo o primeiro ano de papado encerrar a era midiática inaugurada por seu antecessor, João Paulo II, e buscou reanimar os fundamentos da Igreja, indicando a bispos, sacerdotes e leigos o único caminho a seguir para salvar um mundo sem bússola.
  O Papa alemão se comprometeu a dar prosseguimento ao diálogo com os demais cristãos, assim como aos judeus e muçulmanos, um tema prioritário para João Paulo II. No entanto, o especialista em história do cristianismo Alberto Melloni, entrevistado pela imprensa italiana por ocasião do primeiro aniversário do pontificado, a atenção do atual Sumo Pontífice está totalmente dedicada aos problemas internos da Igreja e não aos externos.
  Sua primeira encíclica, divulgada no dia 25 de janeiro e com o título ‘‘Deus é amor’’, ressalta o aspecto espiritual da Igreja e adverte sobre os excessos do ativismo que afetam muitos católicos. O teólogo rebelde suíço Hans Küng, que se encontrou com o Papa em setembro do ano passado, surpreendeu ao reconhecer a possibilidade do Pontífice conservador, seu amigo e colega no passado, querer abordar assuntos como o celibato e a moral sexual.
  ‘‘Espero que convoque um concílio para discutir estes problemas. Percebe o que acontece e sabe que a situação da Igreja é grave’’, disse, ao destacar que as vocações diminuíram e seu peso no conjunto da sociedade é cada vez menos importante, já que enfrenta uma ‘‘crise de confiança’’. Até o momento, Bento XVI não deu qualquer passo nesta direção.
  Pelo contrário, tentou uma aproximação com os católicos ultraconservadores do cismático monsenhor Marcel Lefebvre e não se descarta a possibilidade de que os autorize a oficiar a missa em latim, como desejam. Porém, muitos cardeais se opõem à reintegração dos ‘‘lefebvristas’’ enquanto os mesmos não concordarem com o diálogo com as outras religiões.
  O momento ressalta a visão pessimista de Bento XVI, que pediu em diversas ocasiões aos católicos a defesa da família e a oposição aos ataques contra a vida, desde a concepção até a morte natural.
  Também respondeu rapidamente e com firmeza aos países ocidentais que propõem ou já adotaram a legalização das uniões homossexuais, assim como às pesquisas com células-tronco e à eutanásia para os doentes em estado terminal.
  Apesar de ter nomeado três cardeais asiáticos durante seu primeiro consistório, celebrado no dia 24 de março, o Papa alemão parece menos aberto ao mundo e a seus problemas do que João Paulo II. ‘‘Está convencido de que o futuro do mundo se joga na Europa’’, afirma Melloni, autor de um livro sobre o Papa Ratzinger.
  Bento XVI explica a inquietante força do islã fundamentalista como uma resposta à fragilidade do Ocidente, que ‘‘não soube dar um lugar a Deus a nível público’’. O novo Papa, que passou a juventude sob o nazismo, desconfia do poder político e em geral do mundo, enquanto seu antecessor, o polonês Karol Wojtyla, que viveu não apenas sob o jugo do nazismo, mas também o do comunismo, aprendeu a enfrentar o mesmo.

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