Poluição sem fim
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quinta-feira, 19 de abril de 2007
Marcos Martins<br>Equipe da Folha 
A professora Vera Lúcia Garcia aproveita a tarde ensolarada para caminhar no Parque São Lourenço, em Curitiba. Atualmente a tarefa é agradável, o que não acontecia há alguns anos. O mau cheiro era insuportável, relembra. Outro freqüentador do local, o porteiro Elmo Christ atesta que, em algumas épocas, era difícil até levar algum turista para passear no parque. Tinha que avisar que a situação não era tão boa, conta.
O mau cheiro no lago era resultado da poluição do Rio Belém, que além de passar pelo parque corta 35 bairros da capital. As nascentes estão no Cachoeira e o rio termina no Boqueirão. São 42 quilômetros de extensão e duas realidades: a do leito já revitalizado e despoluído e a do trecho entre o Centro Cívico e a Rodoferroviária, que ainda sofre com o despejo de toneladas de esgoto.
É um trabalho que depende de educação e conscientização, resume César Paes Leme, presidente da Associação de Moradores e Amigos do São Lourenço, a autora do projeto de despoluição da nascente do Rio Belém, que envolve escolas, associações, igrejas e demais entidades civis. A ação ganhou, em 2005, o título de melhor Projeto de Gestão Ambiental Comunitário Internacional apoiado pelo Lions, sendo levado para outras cidades e países.
O primeiro passo foi dado em junho de 2000, com a divisão do leito em 30 trechos, cada um ficando sob responsabilidade de um grupo de participantes. Eles cuidam daquele pedaço, fotografam, observam se está sendo jogado lixo, esgoto, se está havendo o corte da mata ciliar, explica Leme. Quando é detectado que há algo incorreto, a Sanepar faz uma vistoria nos imóveis da região. É jogado um corante azul no vaso sanitário da residência e, se ele não sair na rede de esgoto, a ligação está irregular. Notificamos então o proprietário para que ele efetue algumas obras de correção nestas ligações, explica o coordenador regional de Meio Ambiente da Sanepar, Arion Garcia.
A obra muitas vezes não é tão trabalhosa, já que os bairros contam com o sistema de esgoto. Em todos os bairros por onde passa o rio, a rede de esgoto está disponível. É preciso haver o interesse e a responsabilidade ambiental de se regularizar para não poluir mais, apela Leme.
Alzira Andrade, de 83 anos, viveu duas realidades do leito do rio. A primeira há mais de 40 anos, quando mudou-se para o São Lourenço. Tinha até peixes aqui, relembra. O que se viu depois foi uma sucessão de danos ambientais que transformaram o rio em problema. Jogavam muito lixo e esgoto, então ficava aquele mau cheiro dentro de casa. Fora que dava enchente quando chovia muito, conta. Aos poucos, com o projeto da associação, a realidade foi mudando. Hoje está melhor, atesta Alzira.
Análises da água do rio mostram que, no trecho até o Parque São Lourenço, o nível de oxigênio saltou de 1,7 mg/l para 7,3 mg/l em sete anos de trabalho. Índices preocupantes, como os de nitrogênio e fósforo, caíram de 9 mg/l para praticamente zero.
O desafio agora é levar o projeto ao restante do rio. A partir do Centro Cívico até o Boqueirão ele recebe esgoto de diversos prédios. Queremos que os síndicos e moradores se sensibilizem e peçam uma vistoria da Sanepar, para verificar se a ligação com a rede de esgoto está correta, sugere Leme. Segundo ele, uma obra de adequação não é cara e a adesão dos prédios é fundamental. Todos os dejetos de um grande edifício, comercial ou residencial, jogados no rio oferecem um impacto semelhante ao de um bairro inteiro, calcula. Não queremos multar, não queremos perseguir. Só achamos que a recuperação é possível, desde que haja envolvimento de toda a sociedade, completa.
Para Arion Garcia, o trabalho chega agora ao ponto mais difícil. Até o Centro Cívico, o Belém não é canalizado, o que facilita a visualização de possiveis ligações irregulares. A partir dali ele passa por baixo da cidade e fica mais complicado detectar se está havendo despejo irregular de prédios ou indústrias, explica.
Para a população, independente da dificuldade na execução, a despoluição é imprescindível, desde que haja colaboração dos curitibanos. E se essa água parar em algum rio de abastecimento, será que vamos bebê-la?, questiona o office-boy Renato Souza. Para a aposentada Joana Francisca Mota, falta preocupação com a natureza. Até quem deveria dar exemplo, não dá, critica, referindo-se à ligação da Assembléia Legislativa que despeja esgoto no Rio Belém. Na minha casa fizemos a ligação correta. Agora os deputados não estão nem aí, lamenta. O aposentado Osvaldo Pereira aponta o lixo como outro grave problema. Toda enchente você vê milhares de garrafas plásticas boiando. Elas foram parar lá porque jogaram e isso é fruto da falta de educação. O povo tem que acordar para isso, dispara.


