''Não sou a pessoa mais recomendável para dar uma entrevista'', avisa Luiz Antônio Fidalgo, 50 anos, antes da conversa começar. Os amigos, no entanto, não pensam assim. ''O Fidalgo é um gênio. Na arte e na vida'', afirma Ulisses Galetto, líder do grupo Fato e seu velho conhecido.
Fidalgo trabalha no setor técnico-científico da Polícia Civil, analisando impressões digitais. Mas percorre, desde os anos 80, uma trajetória errática no meio cultural. Fez parte do conjunto musical Acordança, tem um livro publicado e compõe para alguns artistas locais.
Mesmo assim, não se considera um poeta. ''Nunca fui artista 24 horas por dia'', diz. ''O Fidalgo produz quando quer. A arte não faz falta para ele'', explica outro amigo, o escritor e compositor Luiz Carlos Heleno.
Influenciado por nomes como James Joyce, Caetano Veloso e Paulo Leminski, o policial-poeta se assume como parte de uma geração de ''caipiras curitibanos interessados por movimentos de vanguarda''. Seu terreno é o da experimentação, como se pode perceber em Microcontos, único trabalho que publicou, em 1994.
Fidalgo tem outro livro pronto, Fera Bela. Trata-se de um ''romance em prosa experimental'', como ele mesmo define, sobre uma menina que encontra um anjo no fundo de casa. A entidade lhe dá uma missão: encontrar a personalização do poder político e econômico e matá-la. ''Como se vê, é uma heroína que fracassou'', comenta, entre risos.
Sem se levar muito a sério, o escritor tem como meta escoar sua produção dos últimos anos. ''Já fiz o que tinha de fazer. Não vou ficar a vida inteira escrevendo e enchendo os outros'', garante.
Essa crítica ao próprio trabalho se estende aos artistas mais próximos. Galetto, por exemplo, conta que a franqueza do amigo foi fundamental para o desenvolvimento de sua carreira como músico. ''Ele foi muito crítico comigo no início, mas sem isso talvez eu não tivesse chegado até aqui'', admite.
Fidalgo diz que a ''fase da sinceridade'' passou. ''De qualquer forma, acho importante apontar os erros de quem está começando, senão as pessoas passam a viver na ilusão, achando que estão fazendo uma coisa boa''. Cá entre nós, é o que mais falta no meio cultural, não?

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