Plantas invasoras ameaçam biodiversidade
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quinta-feira, 15 de março de 2007
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Pouca gente sabe, mas a grande maioria das plantas presentes nos jardins de Curitiba não é nativa da nossa flora. A rosa, tão homenageada na música popular brasileira, é natural da Ásia. A violeta veio do continente africano e a orquídea, encontrada na Serra do Mar - em meio à Mata Atlântica - foi trazida da Oceania. Estas espécies são consideradas plantas ''exóticas'', vieram de outras partes do globo e aqui se adaptaram muito bem. As flores citadas são inofensivas, mas outras plantas exóticas podem causar impactos devastadores ao meio ambiente local.
Uma destas vilãs é a impatiens walleriana, uma florzinha deveras comum, apelidada pelos brasileiros de ''beijinho'', ou o mais apropriado ''maria-sem-vergonha'', devido ao despudor com que nasce em qualquer lugar onde haja um pouco de terra. Este tipo de planta, que se adapta facilmente ao solo estrangeiro, tem alta capacidade de dispersão e suplanta as espécies nativas, recebe o nome de invasora.
As plantas invasoras, segundo a bióloga Renata Hellen Peres, da prefeitura de Curitiba, representam uma séria ameaça à biodiversidade local. Enquanto estão em seus continentes de origem, elas são reguladas naturalmente pela flora e fauna locais. Mas quando são trazidas a um local diferente, como o Brasil, onde encontram solo repleto de nutrientes e nenhum controle natural, elas se proliferam descontroladamente e competem com as espécies locais.
O aposentado Arselino Sansão, 80 anos, não sabia que os beijinhos presentes em seu jardim eram tão perigosos à nossa flora. Ele conta que já plantou diversas espécies em seu quintal que acabaram morrendo, mas a planta invasora resistiu. ''Se cortar um galho e colocar em outro lugar ela pega'', conta.
''Não é porque é uma planta, que produz oxigênio e tal, que ela não traz desvantagem nenhuma'', diz a bióloga. Dentre os problemas decorrentes da vinda destes espécimes estão variedades desconhecidas de vírus, fungos e bactérias.
Outra invasora nociva à biodiversidade brasileira é o pinus patula, introduzido na flora sul-americana intencionalmente, para uso econômico. Suas pequenas sementes são facilmente dispersadas pelo vento, competindo com árvores nativas como a araucária. Suas folhas cobrem o solo impedindo o desenvolvimento de outras plantas e pelas raízes é lançada no solo uma substância nociva a outros vegetais. De acordo com Hellen, áreas cultivadas com pinus são ''florestas mortas'', pois nada mais cresce naquela região.
Trazida ao Brasil pelo mesmo motivo, o eucalipto abastece a indústria madeireira, mas causa sérios problemas ao meio ambiente local. ''Elas consomem tanta água, que chegam a secar nascentes de rios'', afirma a bióloga. Segundo ela, quando uma empresa madeireira se propõe a reflorestar uma área derrubada, ao invés de plantar espécies nativas, são plantados pinus e eucaliptos, o que acaba proliferando o problema.
Plantas invasoras aquáticas são outro risco para a biodiversidade local. Muitas vezes estas espécies são trazidas junto com a água de lastro dos navios. Ao chegarem a outro continente se desenvolvem desordenadamente causando problemas ecológicos e até de abastecimento de água. ''Elas se reproduzem tanto que entopem os reservatórios'' alerta Renata.
As plantas invasoras são as principais responsáveis pela perda da diversidade vegetal do mundo. Se não forem manejadas adequadamente, corre-se o risco de haver no mundo todo as mesmas espécies de plantas. Para interromper este processo é preciso valorizar as nossas espécies na hora de fazer um jardim. ''Não é o caso de sair arrancando os beijinhos, mas sim controlar sua proliferação'' afirma a bióloga.


