O sonho de revolucionar a economia local e se tornar o centro produtor de gás natural do Paraná, que pareceu tão próximo da realidade no final dos anos 90 com a descoberta dos campos de Barra Bonita, Mato Rico e Rio 'Vorá', tem hoje um traço amargo para os moradores da região de Pitanga - município com 35 mil habitantes, localizado no centro do Estado. A história que envolve a descoberta da maior reserva natural de gás do Paraná começou nos anos 70 quando a extinta Paulipetro - estatal do governo de São Paulo - encontrou os primeiros indícios do combustível na região.
As pesquisas foram abandonadas em estágio inicial e retomadas apenas em 1997 pela Petrobras, que confirmou a existência de gás natural no distrito de Barra Bonita - a 40 km do centro de Pitanga - com a perfuração dos poços BB 1 e BB 2. A descoberta despertou a expectativa de um futuro promissor para a região e alterou profundamente o dia a dia da pequena comunidade até então limitada à atividade rural.
Entre 1998 e 2001, declarações de representantes da Petrobras, da Compagás e do Governo do Paraná, à Folha de Londrina, indicavam que a produção nos campos poderia passar de 1,2 milhão de m3 por dia - 150 mil nos poços BB 1 e BB2 e 1,1 milhão em Mato Rico - município vizinho a Pitanga. Para viabilizar sua comercialização, foram realizados estudos técnicos e audiências públicas para a construção de um gasoduto entre Pitanga e 11 cidades do eixo Londrina-Maringá, na região Norte, e para a instalação de um pólo de indústrias cerâmicas próximo às reservas.
Para a população de Pitanga, os efeitos da novidade foram imediatos: a entrada em cena dos funcionários da Petrobras, da El Paso - empresa americana que também fez pesquisas na região -, e inúmeras outras subcontratadas, levaram para a cidade um contigente de quase 100 profissionais - boa parte estrangeiros. Mais de 300 pitanguenses foram contratados para auxiliar nas pesquisas, o comércio passou a vender mais, e tudo parecia confirmar as previsões mais otimistas.
O que aconteceu a partir de 2001/2002, porém, surpreendeu a todos. ''Ninguém conseguiu acreditar. O tempo passou, passou, e as coisas não evoluíram. No fim, tudo ficou na mesma, as empresas foram embora e a cidade ficou sem saber porque a reserva de gás permanece inexplorada'', conta o prefeito de Pitanga, Alexandre Carlos Buchmann (PTB) - cujo primeiro mandato (97 a 2000) coincidiu com o período em que a Petrobras e a El Paso chegaram à cidade. ''Na época, houve um incremento muito grande para a economia: borracharias, auto-peças, restaurantes, hotéis, todo mundo se empenhou e cresceu. A gente achava que, de um jeito ou de outro, a reserva seria aproveitada.''
Em abril de 2006, após três anos de silêncio, a Folha mostrou que a Compagás reduziu a estimativa das reservas de Pitanga para 55 mil m3 por dia - o bastante para apenas uma empresa de grande porte e insuficiente para justificar um gasoduto. Para esclarecer a discrepância entre as previsões de produção da reserva, o prefeito Alexandre Buchmann deve receber em agosto um representante da Petrobras.
A reportagem da Folha voltou a Pitanga esta semana após oito anos da primeira visita - quando acompanhou a queima do gás obtido no poço de Mato Rico. A lembrança dos tempos de euforia, a decepção pelo que deixou de ser realizado, e a expectativa por mudanças no futuro são visíveis por toda a cidade.
''Eu ainda espero muito que o gás seja explorado. Ia ser bom não só para mim, mas para todo mundo. A gente é pitanguense, nascido e criado aqui, e torce pelo município'', declara o agricultor José Adélio Buski, de 45 anos. Ele é proprietário de um sítio de 30 alqueires e arrendou uma área de 18 mil m2 para a empresa El Paso perfurar um poço em busca do gás, em 2002.
''Eles ficaram de janeiro a outubro e simplesmente foram embora sem explicar o que deu a pesquisa. Nunca adiantou perguntar, eles enrolavam e não falavam nada. Creio que o resultado ia direto para os Estados Unidos.''
Pelo que viu com os próprios olhos, porém, José Adélio acredita que o resultado da perfuração foi positivo. ''Eles chegaram a queimar o gás durante duas madrugadas. Ficou tudo claro, a mesma coisa que de dia. Iluminou quase toda a propriedade'', relembra. Atualmente, José Adélio tenta cobrir o buraco da perfuração e limpar o terreno arrendado para utilizá-lo na lavoura.
Outro capítulo curioso da busca pelo gás natural em Pitanga, talvez mais pelo inusitado do que pelo rigor histórico, tem por palco a Igreja Ortodoxa Ucraniana local. Encravada na parte mais alta da cidade, a belíssima construção, que atrai a grande colônia ucraniana da cidade, teria corrido risco de demolição no fim dos anos 90.
''Os pesquisadores vieram no início de outubro, no período da novena e fizeram um furo na entrada da Igreja e o outro no pé do São José'', conta, bem humorada, a zeladora Elizabeth Zbojneij, de 60 anos - referindo-se à estátua da figura bíblica localizada no jardim. ''O povo ficou doido: disseram que teríamos de trocar a Igreja de lugar se achassem o gás. Aí não tem jeito, né, mexer na Igreja eu acho que ninguém ia deixar.''
A zeladora mostra os locais das perfurações e constata um possível - e involuntário - equívoco. A inscrição na pequena chapa metálica ao pé da estátua foi feita pelo IBGE e indica a localização do ponto geodésico do Paraná - o local mais central do Estado. Outras inscrições são encontradas nos pontos identificados por dona Elizabeth, mas o único tipo de identificação é feito por códigos numéricos aparentemente incompreensíveis.

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