O médico D.M.J. sentiu na pele o que é estar sob um fogo cruzado cada vez mais comum: quando tinha 12 anos, viu seus pais se separarem, após quase duas décadas de união. A decisão de ruptura no relacionamento, como relembra, foi de comum acordo.
''Lembro-me de as brigas serem constantes: tudo era motivo para gritos e berros, de ambas as partes. Eu e meu irmão, mesmo no quarto, ouvíamos tudo'', recorda ele, hoje com 25 anos de idade.
À época, D., que tinha no pai seu maior companheiro, para ''assistir às partidas de futebol e torcer pelo Corinthians'', viu seu castelo ruir. ''Sempre, tanto eu quanto meu irmão, nos demos bem com nossos pais. Para nós, não havia nada de errado naquele conto de fadas, até termos de encarar o estigma de sermos filhos de pais separados''.
O ''paraíso'' não virou sinônimo de trégua entre o ex-casal. ''Passamos a viver um inferno astral. Nosso pai falava mal de nossa mãe e vice-versa. Os ciúmes e a disputa eram explícitos: dinheiro, horários, regras, tudo, para cada um, era de uma forma'', rememora o médico.
Dividido entre a convivência diária com a mãe e os finais de semana com o pai, D. ouvia as queixas de ambos os lados calado. O rendimento escolar, segundo ele, despencou, bem como seu poder de concentração.
''Eu e meu irmão tentávamos não dar razão a esse ou aquele lado. Foram uns seis anos de muitos conflitos e de insegurança, para a gente. Por mais que eles disfarçassem, depois de um tempo, a situação era sempre complicada. No colégio tivemos muitos problemas. Meu irmão com a indisciplina e eu com a falta de concentração.''
A mudança veio quando o jovem entrou na faculdade. ''Fizeram uma festa para mim, uma confraternização, e me lembro, nesse churrasco, de ter pedido como presente algo que não lhes custaria muito: fazer as pazes. De lá para cá, culminando na minha formatura, a situação deu uma boa melhorada e eles já conversam. Minha mãe até se dá bem com minha madrasta'', entrega.
Ajuda especializada
Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2007, o número de divórcios aumentou 52% em dez anos. Segundo a psicóloga Clarice Montosa, como consequência disso está ocorrendo um aumento na procura por terapia.
Para ela, a primeira ação a ser tomada pelos pais, quando se separam, é deixar claro o amor que sentem pelos filhos. ''É importante frisar que o conflito é entre o casal. Outro ponto que destaco é que, para a separação ser menos traumática, os pais devem tratar de seus problemas em particular e nunca na frente das crianças.''
Reduzindo os traumas
Estudante de jornalismo, Paula Gouvêa Carneiro, 20 anos, não tinha nem um ano de idade quando seus pais deram um basta no casamento. ''Fui morar com minha mãe e meus avós maternos quando meus pais se separaram. Acredito que, quanto mais nova a criança, menos ela entende. Portanto, fica mais fácil se acostumar.''
Ao contrário do jovem que preferiu não se identificar, Paula não teve de pisar em muitos ovos. ''Como qualquer criança, achava estranho o fato de meus pais não morarem juntos. Crianças sempre se comparam muito com seus colegas. Lembro que pensava nisso, mesmo bem nova. Mas a separação nunca foi motivo de revolta para mim, pois tinha uma relação muito boa com meus pais e com ambas as famílias. Especialmente com minha mãe, que sempre me instruiu muito bem e incentivava uma relação positiva e sadia com meu pai e sua família.''
As boas relações, aliás, se estendem ao padrasto e à madrasta. ''Além de me dar muito bem com meu pai e minha mãe, hoje superei alguns problemas que tive, como ciúmes do meu pai ou algum desentendimento com meu padrasto. Moro com minha mãe, que se casou de novo quando tinha 4 anos e teve mais um filho. Para todos os problemas, creio que a solução seja uma boa conversa.''
Ciente de que sentimentos como insegurança, medo do abandono, depressão, tristeza, auto-culpa, entre outros, podem desencadear em filhos de pais separados, a futura jornalista, que está no terceiro ano do curso, considera a educação o elemento curativo.
''Não sou mãe, mas aprendi que a educação que se dá a um filho é 99% daquilo que ele vai se tornar. Se os pais agirem da maneira correta e souberem lidar com a situação que têm em mãos, com certeza o filho saberá compreender as razões da separação e aceitará mais facilmente. É importante dar liberdade para o filho conversar sobre tudo, passar segurança. Normalmente, pais e filhos não se dão bem pela falta de confiança''.
Quando o assunto é o próprio casamento, Paula adota a cautela. ''Muitas vezes percebo que tomo posição um pouco cética em relação ao casamento, mas sei que cada caso é único.''

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