Este ano, as comemorações dos 250 anos do nascimento do compositor Wolfgang Amadeus Mozart movimentaram muitos centros musicais e culturais pelo planeta afora. O epicentro das celebrações foi, é claro, a Áustria, terra natal de Mozart. Mas mesmo com um oceano inteiro separando a Europa da América Latina, o Brasil também esteve presente nas homenagens. E uma paulistana radicada há muitos anos em Londrina foi a responsável por colocar o País no mapa mozartiano. Isso porque acaba de ser lançada a segunda edição do livro Cartas de Mozart que tem a tradução para a língua portuguesa da professora Semíramis Lück.
  O livro, lançado pela primeira vez em 1992, teve nova edição patrocinada pela parceria da Secretaria de Cultura do Estado do Paraná e a Universidade Federal Fluminense. Depois de ter sido lançado em Niterói (RJ), Cartas de Mozart terá o lançamento paranaense hoje, a partir das 10 horas, no Hotel Bourbon, em Londrina. E justamente no aniversário da cidade, o dia começa sonoro. É que a sessão de autógrafos terá acompanhamento do grupo Musikanto.
  Primeira professora de canto da cidade, Mimi, como é carinhosamente chamada, também foi uma das pioneiras da televisão local. Ao lado do pianista Marco Antonio Almeida e outros músicos, ela cantava no programa Salão de Concerto, da TV Coroados em 1963. Aliás, foram as apresentações na telinha que deram início às aulas de canto. Os telespectadores interessados começaram a bater na porta de Mimi, que não teve como recusar.
  Em quatro décadas centenas de alunos compartilharam os ensinamentos da professora, que segue dando aulas. Uma empregada antiga da casa acredita que pelo menos duas mil pessoas já passaram pelo treinamento de Mimi. A professora não confirma, mas sabe que o número não está longe da realidade. ‘‘Foram muitos alunos mesmo’’, conta. Para a professora, é muito válido o ditado popular que diz que quem canta os males espanta. ‘‘A voz é um instrumento vivo e você se revela por inteiro quando fala e principalmente quando canta. O canto faz muito bem’’, ensina.
  A professora deixou São Paulo para morar em Londrina para acompanhar o marido Lindolf. Mas também morou durante dois anos na Dinamarca, terra da família Lück. Como a cidade em que fixou residência estava muito próxima à Alemanha, a professora logo aprendeu outro idioma. Aliás, Mimi teve muitas aulas de canto em alemão. ‘‘Melhores do que na Dinamarca’’, lembra. Mesmo morando em Londrina, a professora continuou seus estudos em São Paulo, para onde ia uma vez por mês. ‘‘Tinha aulas com Madalena Lebeis, a maior cantora de câmara do País’’, explica.
  Foram os conhecimentos de alemão e música de Mimi que levaram a então secretária de Estado de Cultura Gilda Poli a fazer o convite para que ela traduzisse as cartas de Mozart. Isto em 1991, ano marcado pelas comemorações dos 200 anos de morte do compositor. Com o desafio aceito, a professora-tradutora recebeu o original de Willi Reich, de 1948. Organizada e determinada passou meses traduzindo as mais de 200 cartas. ‘‘Eu me impus uma regra e traduzia pelo menos duas por dia’’, lembra.
  Mas não foi um mero trabalho de tradução literal. Mimi foi procurar em biografias de Mozart as muitas referências que fez ao longo do livro para contextualizar as cartas. Com a experiência e o conhecimento de poeta trovadora, fez proezas como o poema que Mozart escreveu para a irmã às vésperas do casamento dela. ‘‘Segui rima e métrica’’, explica a tradutora feliz com o resultado. E não poderia deixar de ficar.
  ‘‘As pessoas não ficam indiferentes a Mozart’’, comenta Mimi. E isso não só com a música mas também com suas cartas. ‘‘O livro é uma convivência com a intimidade dele’’, adianta. ‘‘A maioria’’, contabiliza a tradutora, ‘‘é de cartas para o pai, muito severo e exigente’’. As cartas para a esposa Constanze não chegam a ser românticas, mas são sempre assinadas com amor.
  A primeira edição de Cartas de Mozart teve a tiragem de dois mil exemplares e a segunda chega com mil exemplares. Os contatos com a Universidade Federal Fluminense foram feitos por meio de uma das filhas de Mimi. Ester é pró-reitora para assuntos acadêmicos da universidade. ‘‘Nada é por acaso’’, conta a professora. No mês passado, o livro foi lançado em Niterói com trilha sonora da Orquestra Nacional. ‘‘Os músicos da orquestra fizeram fila para comprar o livro’’, conta a tradutora.
  Nada mais natural que músicos que interpretam a genialidade de Mozart também se interessem pela sua vida íntima. ‘‘Há muita divergência entre os biógrafos’’, explica Mimi. ‘‘Quando se lê as cartas é possível perceber que ele era perdulário, mas também era muito explorado pelas pessoas’’, diz.
  Dona de uma ‘‘voz mozartiana’’, segundo uma das suas primeiras professoras de canto, Mimi conseguia, nas leituras das cartas, ‘‘se transportar para a época do compositor austríaco (que viveu entre 1736 e 1791)’’. ‘‘Os leitores também vão poder supor mil coisas lendo as cartas e participando da intimidade de Mozart’’, adianta a tradutora. ‘‘Ele descrevia o que estava sentindo e gostava de brincar com a sonoridade das palavras’’, completa Mimi.

Viena, 18 de agosto de 1784
Minha muito querida irmã!
Ao se casar, vai compreender
o que antes era uma charada
Saber da própria experiência
que trouxe à Eva a conseqüência
de com Caim ser contemplada.
Mas, das esposas o dever
pode até mesmo dar prazer,
nem ser assim tão pesado.
Na vida a dois, a alegria
se alterna com a nostalgia
pois, tudo tem o outro lado.
Agora, se o seu marido
chega em casa aborrecido
e a maltrata sem razão:
lembre que isso é passageiro
e lhe obedeça o dia inteiro...
mas, à noite, diga - não.
Seu fiel irmão
W. A. Mozart

Serviço: Lançamento da 2ª edição do livro Cartas de Mozart, com tradução de Mimi Lück. Hoje às 10 horas no Hotel Bourbon. Alameda Miguel Blasi, 40

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