Pioneira tem boas lembranças
Katia Baggio
Especial para a Folha
Quando, em 1967, a jovem de 18 anos Nilza de Castro prestou concurso público para trabalhar na prefeitura de Londrina, nunca imaginou que estava dando o primeiro passo rumo ao primeiro e único trabalho de sua vida. Na Sercomtel eu aprendi a viver e conquistei tudo o que tenho, diz.
Lá ela conheceu o marido, Israel Marconi, decidiu estudar, ser mãe (tem três filhos) e se orgulha de dizer que ajudou a modificar a fraseologia e a própria postura das telefonistas, para se aposentar, em 97. Pela rigidez do militarismo pós-64, nem podíamos dizer nosso nome ao atender a uma chamada. Hoje essa é a segunda informação mais importante na frase de quem é telefonista. A primeira é o nome da empresa, conta Nilza.
A contratação oficial foi registrada em maio de 68, antes mesmo da inauguração da Sercomtel, que aconteceu em julho. Nilza e mais duas telefonistas começaram operando uma mesa com quatro serviços: o prefixo 102, para informações, o 103 para reclamação de defeitos, 105 com o PABX da empresa e a mesa de auxílio rural.
Ela relembra do fone pesado sustentado na cabeça e do painel com lâmpadas que acendiam conforme o usuário fazia uma chamada. Uma espécie de chave completava a conexão que dava início e fim às ligações. Na telefonia rural o processo era um pouco diferente porque dependia completamente do serviço da telefonista. Nós conectávamos o cliente ao destino através dos pegas, que eram cordões ligados à fiação que ia até o patrimônio.
Nilza se diverte contando que, de tanto atender a mesa rural, ela e as colegas tinham um serviço próprio de meteorologia. Nós sabíamos quando ia chover porque as luzes começavam a piscar ao mesmo tempo e sem parar. É porque o vento balançava demais os fios, que se chocavam uns contra os outros.
Nessa época, as telefonistas buscavam as informações solicitadas em listas impressas. Como o volume de serviço foi crescendo rápido, um técnico da Sercomtel desenvolveu painéis rotativos onde eram inseridas plaquetas com os dados de cada proprietário de linha. Mas eram muitas chamadas ao mesmo tempo e elas giravam o painel rápido demais. As placas caíam ou se acumulavam umas sobre as outras. Quando isso acontecia era um desespero total, pois precisávamos dar a informação com eficiência e rapidez.
O serviço de despertador era um dos preferidos de Nilza. Ela lembra que já conhecia muitos usuários pela voz porque eles confiavam plenamente seus horários às telefonistas. Eu adorava acordar as pessoas e sentir que tinha possibilitado a elas cumprir seus compromissos sem atrasos, destaca.
Há certa altura da década de 70 foi preciso instalar outra mesa de operações, porque a original não atendia mais à demanda. Mais uma vez os técnicos da empresa entraram em ação. A nova mesa foi batizada pelas telefonistas de marciana, porque tinha lâmpadas verdes e vermelhas que piscavam desenfreadas.
Como telefonista, Nilza acumulou muito Natal, Ano Novo e feriado sentada com um fone no ouvido. O acessório chegou a criar um pequeno calo na cartilagem da orelha direita. Ainda tem um pouquinho, orgulha-se, como quem não quer mesmo que a protuberância desapareça. Afinal, é um símbolo físico dos 25 anos dedicados à Sercomtel e à própria profissão.
A época de adaptações foi acabando com a chegada de equipamentos automatizados, em meados da década de 80. Os ruídos diminuíram, as reclamações de defeitos também. O terminal de computador passou a compor os acessórios das telefonistas, junto com fones mais leves e eficientes. Elas passaram a trabalhar de maneira mais ágil e menos desgastante, relata Nilza.
Começou a surgir na Sercomtel a preocupação com a salubridade dos funcionários. As paredes e teto da sala das telefonistas receberam vedação contra ruídos e os móveis passaram a ter desenho ergométrico. No começo nós nem pensávamos nesse aspecto do trabalho. Foi muito importante assistirmos a iniciativa da empresa em prevenir males operacionais, comenta Nilza.
A partir daí, foi adotada a forma participativa de tomada de decisões. Até a compra de cortinas ou mudança no procedimento profissional são discutidas e deliberadas por meio de comissões, conta.
Para Nilza de Castro Marconi, terceira telefonista contratada pela Sercomtel, aposentada mas ainda atuante na sessão de serviços gerais, como gerente, pensar em se aposentar foi quase adoecer.
Era uma decisão que só eu poderia tomar. Afinal, tudo tem começo, meio e fim e já estava na hora de meus filhos e marido compartilharem mais da minha presença. Por isso, passei dois anos e meio me preparando emocionalmente para sair da Sercomtel, diz.
O processo incluiu ataques de choro, sentimento de perda e medo da nova vida, mas também promoveu uma reciclagem pessoal da qual Nilza acabou se beneficiando. Ela resolveu usar as economias de tantos anos em um negócio próprio e decidiu pela agricultura.
Hoje, já recuperada do desligamento efetivado em 97, Nilza faz cursos no setor de leite e derivados e quer ser uma pequena empresária rural. O caminho dela deve mesmo ser esse, a contar pelo carinho com que trata plantas e animais. Em sua casa, além da família, dispõem de sua atenção uma cachorra da raça pastor, outra husk siberiano e quatro canários.
Apesar de aposentada, a telefonista por afinidade, como ela diz, mantém o mesmo tom de voz suave e gentil, marcas registradas de sua profissão, quando atende ao telefone de casa. Eu me sinto no direito de ainda fazer parte da Sercomtel com o coração. E desejo que a empresa cresça com a seriedade de sempre e continue prestando serviço de qualidade a uma população cada vez maior.Uma das primeiras contratadas da Sercomtel, Nilza de Castro é uma das memórias vivas da telefonia paranaense
Dorico da SilvaArquivo PessoalNilza de Castro, hoje aposentada, trabalhou na Sercomtel desde a criação da empresa, e recorda com saudade dos tempos românticos, quando, aliás, conheceu o marido, Israel Marconi: No Sercomtel eu aprendi a viver e conquistei tudo o que tenho





